sábado, 7 de dezembro de 2013

Ensinai-me

Ensinai-me o mistério
o mistério da chama
pelo qual meu coração clama
em um encontro sidéreo.

Ensinai-me o que é secreto
na terrível esfera
pelo qual minha alma espera
pelo tanto que lhe quero.

Ensinai-me o ascenso
da força que me cabe
que está além do que penso
pela magia que sabe.

Ensinai-me a sensibilidade
além do que mente
pelo fogo fervente
da terrível realidade.

Autoria: Elton Almeida

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Presente de Deus


re.conhecimento instantâneo
de polos que vibram harmônicos
ressoando a celebração íntima

eternos abraços sincronizados
carinhos acalmam o espírito
em comum.união mística

ah, se falassem as ruas e ladeiras
pedras testemunharam nosso samba
guardando em si pedidos e promessas

aventuras na selva de concreto
caça ao tesouro barroco
pequenos cuidados e grandes risos

devoção livre e espontânea
entrega alegre e centrada
a sabedoria de ser criança grande

sensibilidade denuncia o oculto
mútuo aprendizado
em magnetismo alquímico

nas águas ferventes de Eros
flashes de pura luz divina
a sublimação consciente

palavras limitam tal amor infinito
que a música e a dança revelem
o sagrado mistério da letra

no desejo de ser tocada
como seu instrumento,
sigo imaculada.

(Olívia Braschi)

sábado, 12 de outubro de 2013

Dois Meninos



Meu menino canta, canta 
Uma canção que é ele só que entende 
E que o faz sorrir. 

Meu menino tem nos olhos os mistérios 
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo 
Mas de que tenho saudades infinitas. 

As cinco pedrinhas são mundos na mão. 
Formigas que passam, 
Se brinca no chão, 
São seres irreais... 

Meu menino d'olhos verdes como as águas 
Não sabe falar, 
Mas sabe fazer arabescos de sons 
Que têm poesia. 

Meu menino ama os cães, 
Os gatos, as aves e os galos, 
(São Francisco de Assis 
Em menino pequeno) 
E fica horas sem fim, 
Enlevado, a olhá-los. 

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho, 
Eu tenho saudades, saudades, saudades 
Dum outro menino... 

Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra"

domingo, 15 de setembro de 2013

Ostra feliz não faz pérola.

"A ostra, para fazer uma pérola,

precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer.

Sofrendo, a ostra diz para si mesma:

'Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca

com uma esfera lisa que lhe tire as pontas...'

Ostras felizes não fazem pérolas....

Pessoas felizes não sentem necessidade de criar.

O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor.

Não é preciso que seja uma dor doída...

Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade.

Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram.

Para me livrar da dor, escrevi."

(Rubem Alves)


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

RESPOSTAS NA SOMBRA





"Sofro... Vejo envasado em desespero e lama
Todo o antigo fulgor, que tive na alma boa;
Abandona-me a glória; a ambição me atraiçoa;
Que fazer, para ser como os felizes?"
— Ama!

"Amei... Mas tive a cruz, os cravos, a coroa
De espinhos, e o desdém que humilha, e o dó que infama;
Calcinou-me a irrisão na destruidora chama;
Padeço! Que fazer, para ser bom?" 
— Perdoa! 

"Perdoei... Mas outra vez, sobre o perdão e a prece,
Tive o opróbrio; e outra vez, sobre a piedade, a injúria;
Desvairo! Que fazer, para o consolo?" 
— Esquece! 

"Mas lembro... Em sangue e fel, o coração me escorre;
Ranjo os dentes, remordo os punhos, rujo em fúria...
Odeio! Que fazer, para a vingança?" 
— Morre! 

(Olavo Bilac)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

POEMA EM LINHA RETA



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo. 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência
para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente
nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras,
pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse
que uma vez foi vil? 
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que venho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Desentranhando-se

Como poderia?
Tanto me acompanharam.
Como poderia ir contra eles.
Não pode isso ser correto.

Gostaria de desentranha-los
como quem arranca a pele do peito,
para arrancar de dentro de si...
algo que não é.

Porém, para quem está em guerra,
não há escolha além de empunhar a espada,
e como quem caminha sobre ela,
andar em linha reta.

Enquanto desentranha a todos
e avança frente às multidões.
Dividindo-os todos
Ao meio, ao meio, ao meio.

Autoria: Elton Almeida