sábado, 12 de outubro de 2013

Dois Meninos



Meu menino canta, canta 
Uma canção que é ele só que entende 
E que o faz sorrir. 

Meu menino tem nos olhos os mistérios 
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo 
Mas de que tenho saudades infinitas. 

As cinco pedrinhas são mundos na mão. 
Formigas que passam, 
Se brinca no chão, 
São seres irreais... 

Meu menino d'olhos verdes como as águas 
Não sabe falar, 
Mas sabe fazer arabescos de sons 
Que têm poesia. 

Meu menino ama os cães, 
Os gatos, as aves e os galos, 
(São Francisco de Assis 
Em menino pequeno) 
E fica horas sem fim, 
Enlevado, a olhá-los. 

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho, 
Eu tenho saudades, saudades, saudades 
Dum outro menino... 

Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra"

domingo, 15 de setembro de 2013

Ostra feliz não faz pérola.

"A ostra, para fazer uma pérola,

precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer.

Sofrendo, a ostra diz para si mesma:

'Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca

com uma esfera lisa que lhe tire as pontas...'

Ostras felizes não fazem pérolas....

Pessoas felizes não sentem necessidade de criar.

O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor.

Não é preciso que seja uma dor doída...

Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade.

Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram.

Para me livrar da dor, escrevi."

(Rubem Alves)


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

RESPOSTAS NA SOMBRA





"Sofro... Vejo envasado em desespero e lama
Todo o antigo fulgor, que tive na alma boa;
Abandona-me a glória; a ambição me atraiçoa;
Que fazer, para ser como os felizes?"
— Ama!

"Amei... Mas tive a cruz, os cravos, a coroa
De espinhos, e o desdém que humilha, e o dó que infama;
Calcinou-me a irrisão na destruidora chama;
Padeço! Que fazer, para ser bom?" 
— Perdoa! 

"Perdoei... Mas outra vez, sobre o perdão e a prece,
Tive o opróbrio; e outra vez, sobre a piedade, a injúria;
Desvairo! Que fazer, para o consolo?" 
— Esquece! 

"Mas lembro... Em sangue e fel, o coração me escorre;
Ranjo os dentes, remordo os punhos, rujo em fúria...
Odeio! Que fazer, para a vingança?" 
— Morre! 

(Olavo Bilac)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

POEMA EM LINHA RETA



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo. 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência
para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente
nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras,
pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse
que uma vez foi vil? 
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que venho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Desentranhando-se

Como poderia?
Tanto me acompanharam.
Como poderia ir contra eles.
Não pode isso ser correto.

Gostaria de desentranha-los
como quem arranca a pele do peito,
para arrancar de dentro de si...
algo que não é.

Porém, para quem está em guerra,
não há escolha além de empunhar a espada,
e como quem caminha sobre ela,
andar em linha reta.

Enquanto desentranha a todos
e avança frente às multidões.
Dividindo-os todos
Ao meio, ao meio, ao meio.

Autoria: Elton Almeida

terça-feira, 21 de maio de 2013

Oração de Nietzsche: Ao Deus desconhecido


Muitos só conhecem de Nietzsche a frase “Deus está morto”. Não se trata do Deus vivo que é imortal. Mas do Deus da metafísica, das representações religiosas e culturais, feitas apenas para acalmar as pessoas e impedir que se confrontem com os desafios da condição humana. Esse Deus é somente uma representação e uma imagem. É bom que morra para liberar o Deus vivo. Mas não devemos confundir imagem de Deus com Deus como realidade essencial. Nietzsche estudou teologia. Eu pude dar uma palestra na Universidade de Basel na sala em que ele dava aulas, quando fui professor visitante em 1998 lá. Essa oração que aqui se publica é desconhecida por muitos, até por estudiosos do filósofo. Por isso no final indico as fontes em alemão de onde fiz a tradução. No original, com rimas, é de grande beleza. LB

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.

Texto: Leonardo Boff

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Longe Ficou Perto


               Vejo de longe as forças do vento de agosto, sem presa nem medo, hoje acredito nas coisas e no tempo. Tudo existe e tudo é verdade, não existem mentiras apenas verdades, apenas uma mentira. Também não existem verdades, apenas mentiras e apenas uma verdade. Mas tudo é vazio em realidade, e tudo existe nele, ao mesmo tempo em que deixa de existir. E tudo é liquido quando deveria não ser, porque tudo deveria ser solido ainda que fluindo como liquido. Hoje acredito nas coisas e nas mentiras que me contam, pois muitas verdades se escondem nelas. Não quero nada ainda que esperem muito de mim. Creio em Deus e peço unicamente que se faça a sua vontade, mas também imploro a minha mãe que convença meu pai de minhas vontades. Talvez assim se faça um bom filho? Aprendo a fluir quando aprendo a navegar pelas infinitas veias da mentira. Deus, diga-me como posso lhe agradecer isso que sinto em meu peito e que bate a cada instante, feito chama que queima tudo que não é ela mesma, cedo ou tarde. Peço a ti, coisa fria e inexistente, que não me proteja de meus inimigos que me batem nas costas e apertam minha mão. Mas que antes lhes permita cravarem a adaga nos meus muitos peitos. Pois esta é a estação da morte.  

Filipe Zander