quinta-feira, 6 de junho de 2013

Desentranhando-se

Como poderia?
Tanto me acompanharam.
Como poderia ir contra eles.
Não pode isso ser correto.

Gostaria de desentranha-los
como quem arranca a pele do peito,
para arrancar de dentro de si...
algo que não é.

Porém, para quem está em guerra,
não há escolha além de empunhar a espada,
e como quem caminha sobre ela,
andar em linha reta.

Enquanto desentranha a todos
e avança frente às multidões.
Dividindo-os todos
Ao meio, ao meio, ao meio.

Autoria: Elton Almeida

terça-feira, 21 de maio de 2013

Oração de Nietzsche: Ao Deus desconhecido


Muitos só conhecem de Nietzsche a frase “Deus está morto”. Não se trata do Deus vivo que é imortal. Mas do Deus da metafísica, das representações religiosas e culturais, feitas apenas para acalmar as pessoas e impedir que se confrontem com os desafios da condição humana. Esse Deus é somente uma representação e uma imagem. É bom que morra para liberar o Deus vivo. Mas não devemos confundir imagem de Deus com Deus como realidade essencial. Nietzsche estudou teologia. Eu pude dar uma palestra na Universidade de Basel na sala em que ele dava aulas, quando fui professor visitante em 1998 lá. Essa oração que aqui se publica é desconhecida por muitos, até por estudiosos do filósofo. Por isso no final indico as fontes em alemão de onde fiz a tradução. No original, com rimas, é de grande beleza. LB

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.

Texto: Leonardo Boff

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Longe Ficou Perto


               Vejo de longe as forças do vento de agosto, sem presa nem medo, hoje acredito nas coisas e no tempo. Tudo existe e tudo é verdade, não existem mentiras apenas verdades, apenas uma mentira. Também não existem verdades, apenas mentiras e apenas uma verdade. Mas tudo é vazio em realidade, e tudo existe nele, ao mesmo tempo em que deixa de existir. E tudo é liquido quando deveria não ser, porque tudo deveria ser solido ainda que fluindo como liquido. Hoje acredito nas coisas e nas mentiras que me contam, pois muitas verdades se escondem nelas. Não quero nada ainda que esperem muito de mim. Creio em Deus e peço unicamente que se faça a sua vontade, mas também imploro a minha mãe que convença meu pai de minhas vontades. Talvez assim se faça um bom filho? Aprendo a fluir quando aprendo a navegar pelas infinitas veias da mentira. Deus, diga-me como posso lhe agradecer isso que sinto em meu peito e que bate a cada instante, feito chama que queima tudo que não é ela mesma, cedo ou tarde. Peço a ti, coisa fria e inexistente, que não me proteja de meus inimigos que me batem nas costas e apertam minha mão. Mas que antes lhes permita cravarem a adaga nos meus muitos peitos. Pois esta é a estação da morte.  

Filipe Zander 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Nuvens de me(n)tal

       

          No salto à Deus, no esticar da minha consciência, na luta contra nuvens de metal, feito raio vindo do alto, toco a base da fogueira e escorre o sangue do salvador, o qual eu tomo ao gargalo. Que corra em mim sangue bendito, feito aroma das rosas. Tua rosa bendita. Escalaras a cruz e no meio dela se introduziras.
          Nessa viagem metafisica. Sem resistência, sem resistência, sem resistência. Porque a verdade deve penetrar como naquela manhã de março, final de março, e o canto dos pássaros, que deve ressoar por toda a eternidade. E que nossa historia seja contada feito epifania, nos túmulos dos mortos. Eles contarão nossa historia. Eles! Não se apegue a historia nem a lembrança. RASGUEM SEUS CADERNOS, QUEIME SUAS CASAS, RASGUEM SUAS ROUPAS, SEUS LIVROS E PROJETOS, VAMOS ABANDONAR TUDO. Não se engane é uma mentira a tortura consigo mesmo. Nade para dentro, para a alma, para cima, para o oposto, para ele, nós 3, no lar, no amor, no todo. E no fim, como premio, tocar o outro, como ponto máximo do amor.  

Filipe Zander    

sexta-feira, 12 de abril de 2013

One Of Us



Tradução:

Ah, em uma dessas noites, lá pela meia noite
Esta terra inteira vai cair no rock
Os santos vão tremer e chorar de dor
Para que o Senhor venha em seu avião celestial.

Se Deus tivesse um nome, qual seria?
E você seria capaz de ligar nome à Pessoa,
se você desse de cara com Ele e toda a Sua glória?
O que você perguntaria, se você pudesse fazer apenas uma pergunta?

Sim, sim, sim, Deus é maravilhoso
Sim, sim, sim, Deus é bom
Sim, sim, sim, sim

E se Deus fosse um de nós?
Apenas um desajeitado como um de nós
Apenas um estranho no ônibus
Tentando fazer Seu caminho de casa

Se Deus tivesse um rosto, com o que seria parecido?
E você gostaria de vê-Lo
Se ver significasse que você tivesse que crer
Em coisas como o Céu e Jesus e os santos
E todos os profetas?

Sim, sim, sim, Deus é maravilhoso
Sim, sim, sim, Deus é bom
Sim, sim, sim, sim

E se Deus fosse um de nós?
Apenas um desajeitado como um de nós
Apenas um estranho no ônibus
Tentando do Seu jeito voltar para casa
Apenas tentando do Seu jeito voltar para casa
Voltar para o céu sozinho
Ninguém chamando-o ao telefone
Exceto pelo Papa, talvez, em Roma.

Sim, sim, Deus é maravilhoso
Sim, sim, Deus é bom
Sim, sim, sim, sim, sim

E se Deus fosse um de nós?
Apenas um desajeitado como um de nós
Apenas um estranho no ônibus
Tentando do Seu jeito voltar para casa
Como um Holly Rolling Stone
Voltar para o céu sozinho
Apenas tentando do Seu jeito voltar para casa
Ninguém chamando-o ao telefone
Exceto pelo Papa, talvez, em Roma.


Joan Osborne

quarta-feira, 27 de março de 2013

Eus


Desde que eu nasci tô no conflito
Aflito pra saber porque
Com tanta gente que eu podia ser
Eu nasci eu
Perdido entre sentimentos bons
Pequenos delitos e contradições
Entre a luz e o breu

Molho o pão no café e levo fé
Que Deus é preto e fuma cachimbo
Nasce menino, cresce mulher
Vira fumaça, não tem destino
Brinca de roda, roda nos ventos
Dança na chuva, pois é um índio
E cai no frevo, dança bale 
No que imagino
Em tudo o que há, Ele é

Mas eu não sou um só 
Não sou só um
Eu também sou milhões de eus 
Não sou Deus mas sou Eus

Pois sou eu quem acredita em mim
Sou eu quem me explico
Quando me complico
Eu mesmo atendo as minhas preces
Eu mesmo quem ouço
Os meus próprios gritos

Oh, brother!
Buscando a minha própria conclusão
Oh, brother!
Foi Eus quem quis assim
Oh, brother!
Eus é Deus dentro de mim... Graças a Deus


Composição de Mauricio Baia & Rockboys

sexta-feira, 8 de março de 2013

Duração


Nos passos em meio a noite.
No silêncio oculto de meu coração.
Sinto-te.

Me acompanhas,
Por tão pouco, ainda me acompanhas.
O que teria esta tão passageira forma que me compõe a te oferecer?

Não sou digno, pois minha morada não é digna de ti.
Tenho lhe dado apenas o amargo sabor da traição por tantos séculos...
A memória já não alcança mais os primeiros erros.



Não te enganes,
Sua manifestação é imprópria, disso tem sábia razão.
Sua morada é imprópria, a falta de luz no altar prova minha ausência.
As paredes são simples, carecem de inefável beleza
E faltam pedras no altar de ofício.

Hoje há, no altar onde oficiarei, nos sublimes dias que aguardo,
Uma única vela.
Solitária, porém fogo se espalha, domina, ilumina.
A menor das fagulhas pode se converter em nova fogueira.

No dia que a luz do fogo acima das pedras do altar retornar,
minha manifestação será vista no vento.
No vento parido da força e calor do fogo.
Ecoará pela duração de seus passos.
E permanecerá.

Autoria: Elton Almeida

quarta-feira, 6 de março de 2013

Ao seu Tempo




Escutarás teu nome entre gritos e gemidos, de uma forma antes não escutada, e gelarão vossos ossos. Materiais? Mortais? Sentirás o amor alheio, feito sangue vivo, se esvaindo face à morte.  Escreverão com sangue a vossa sentença, julgando lhe indiferente frente à vida, condenado estarás e todos os anjos de Deus descerão do céu vestidos de demônios, se ajoelharás e não acharás perdão dentro de si, terás vergonha no orar e no pedir. Terás vergonha do sexo bendito, mas não conseguirás esconder sua mentira, a qual, disfarçada, estará por traz da couraça do tempo. Mas serás a forma viva de todo o erro que se inicia com o mais simples dos pronomes. Sentirás o desespero ao olhar no olho do leão, que avança, e fugirás em vossa fuga inútil. Sentirás a morte, antes mesmo que ela toque vossa carne, e que, com vossos dentes afiados lhe cobrem o empréstimo. Morrerás antes mesmo da própria morte, como a ilha sagrada velada entre as brumas, desespero dos infiéis navegantes. Entrarás em Deus, morte eterna, e não saberás mais quem é Deus, verás tua lógica, vossos silogismos e vossas contradições se perderem. E duvidarás de tudo e não mais vai querer estar ali, sentirás sim! A agonia e não estarás triste, mas serás a própria tristeza, e não estarás desesperado, como tantas vezes em vossas medíocres vidas acreditou estar, mas encarnarás o próprio desespero. Demônios malditos ou anjos de Deus? Pegarás e não irás ter, olharás e não verás, beijarás e não sentirás nada, teu sexo serás seco e lógico. Abraçarás vossos entes queridos e nunca chegarás a tocar-lhes vossos corações. E buscarás abraços mais apertados e peitos mais acolhedores para descansar vossa cabeça pesada, mas no fim de toda noite sentirás frio, Nuit! Saberás que a única certeza do dia é à noite e da juventude é à velhice. E que vosso sexo se enfraquece com o tempo e que vossa cabeça adquire o peso da pedra, e que por isso não necessitarás de grades e nem de algemas para estar preso. E quando, por fim, o leão vier calmo e sereno degustar de vossos ossos,lhe faltará às forças e irás por fim devolver tudo que lhe emprestaram, e não serás mais nada. Nem dor, nem angustia, nem tristeza e nem alegria, perdera a si mesmo em um oceano profundo.Então não morrerás, mas serás a própria morte, a fuga ultima de todos os fracos e ricos de espirito.

Autor: Filipe Zander 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A morte é a curva da estrada



A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.



Fernando Pessoa - 23-5-1932
(Livro do Desassossego) 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Não tenhas nada nas mãos




Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que Átropos to não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 
Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio.


Ricardo Reis - 19/06/1914 
(Fernando Pessoa)

domingo, 27 de janeiro de 2013

Juramento da Bruxa


Que eu seja como a que tece o pano
na floresta, profundamente escondida.
Que eu possa fazer o meu trabalho sem interrupção. 
Que eu seja uma exilada, se este é o sacrifício. 
Que eu conheça a procissão sazonada do meu espírito e do meu corpo, e possa celebrar os quartos em cruz, solstícios e equinócios. 
Que cada Lua Cheia me encontre a olhar para cima, nas árvores desenhadas no céu luminoso. 
Que eu possa acariciar flores selvagens, cobri-las com as mãos. 
Que eu possa libertá-las, sem apanhar nenhuma, para viver em abundância. 
Que meus amigos sejam da espécie que ama o silêncio. 
Que sejamos inocentes e despretensiosos. 
Que eu seja capaz de gratidão. 
Que eu saiba ter recebido a alegria, como o leite materno. 
Que eu saiba isso como o meu gato, no sangue e nos ossos. 
Que eu fale a verdade sobre a alegria e a dor, em canções que soem como o aroma do alecrim, como todo o dia e na antiguidade, erva forte da cozinha. 
Que eu não me incline à auto-integridade e a auto-piedade. 
Que eu possa me aproximar dos altos trabalhos da terra e dos círculos de pedra, como raposa ou mariposa, e não perturbar o lugar mais que isso. 
Que meu olhar seja direto e minha mão firme. 
Que minha porta se abra àqueles que habitam fora da riqueza, da fama e do privilégio. 
Que os que jamais andaram descalços não encontrem o caminho que chega a minha porta. 
Que se percam na jornada labiríntica. 
Que eles voltem. 
Que eu me sente ao lado do fogo no inverno e veja as chamas brilhando para o que vier, e nunca tenha necessidade de advertir ou aconselhar, sem que me peçam. 
Que eu possa ter um simples banco de madeira, com verdadeiro regozijo. 
Que o lugar onde habito seja como uma floresta. 
Que haja caminhos e veredas para as cavernas e poços e árvores e flores, animais e pássaros, todos conhecidos e por mim reverenciados com amor. 
Que minha existência mude o mundo não mais nem menos do que o soprar do vento, ou o orgulhoso crescer das árvores. 
Por isso, eu jogo fora a minha roupa. 
Que eu possa conservar a fé, sempre! 
Que jamais encontre desculpas para o oportunismo. 
Que eu saiba que não tenho opção, e assim mesmo escolha como a cantiga é feita, em alegria e com amor. 
Que eu faça a mesma escolha todos os dias e de novo. 
Quando falhar, que eu me conceda o perdão. 
Que eu dance nua, sem medo de enfrentar meu próprio reflexo. 

Autora: Rae Beth

sábado, 26 de janeiro de 2013

Cântigo Negro

de José Régio

‎"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Fio

Amplo e largo
pode ser o caminho em nosso encargo.
Porém, quando se acende a luz,
Percebe-se que a amplitude se reduz.

Se reduz tanto,
Que para o refúgio não há canto.
E pensa: “não sei onde estou e não me encaixo,
Nem acima e nem abaixo”.

Por isso a espada,
Das armas a mais elevada,
Tem a função de cortar.
Adquirindo o poder de dois lados separar.

Dessa questão nunca consegui fugir.
Pois poderia contundir,
De várias formas ferir.

Porém corta.
“Que mistério ela exorta?”

Separar a esquerda da direita
Através de sua passada estreita...
Então percebo que demonstra sempre a que veio
Ao revelar de tudo o meio.

Aqueles que caminham apreendem o que digo.
Sobre isso que persigo.
E como outros persiste,
Em direção ao que não existe.

Por um caminho estreito como a passada da espada
Até a manifestação do nada.
Que passa entre a direita e a esquerda,
Através do fio...do fio da espada.

Autoria: Elton Almeida

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Velha Opinião

Como o dedilhar inspirado
No violão de um velho músico.
Como um coração cansado
Que anseia a volta do lúdico.

Como a escrita de um poema
Sem um poeta,
Baseado em algum teorema,
De quem andou de forma reta.

Como um eremita em um deserto,
Seguindo firme e agonizante ao oásis mais perto.
Como a busca pelo invisível,
Ainda que tímido e vívido
O buscador do incognoscível.

Como quem quebra as regras,
E em terra fértil semeia,
Para fugir da areia
E firmar o pé nas pedras.

Como a flama. Sim! A flama.
Que seja mais que eterna essa chama
Para poder dizer não,
A auto consideração
E alimentar em meu coração
Aquela velha opinião.

Autoria: Elton Almeida

domingo, 6 de janeiro de 2013

Perceber

Quanto mais forte é a luz
mais negra é a sombra...

O Mal?
Esse não existe...
fora de ti!
Se esforce pra vê
a beleza da flor
que brota da lama

Não se impressione com o Mal
pois esse não existe
fora de ti!
Procure percebe
não procure o Bem
só porque lhe da prazer.

Meu maior inimigo é Eu
Meu maior aliado é Perceber


 Autor: Douglas A. Remonatto
(Junho de 2005)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Choro à capela

de Adélia Prado

"O poder que eu quisera é dominar meu medo
Por este grande Dom troco meus dedos, meu verso,
meus anéis, meu colar;
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.


Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.


Mas venho e vou,
"os lobos tristes" a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.

As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero."

domingo, 30 de dezembro de 2012

Urgências Noturnas

Durante o dia, por mim
as horas passam faceiras,
já as noturnas
nunca me perdoam.
 

Esse é o mal de todo louco:
ser um tanto lunático, dual,
cíclico e temperamental.
 

Há temperos, ervas e fogos;
alquimias sem receita
cujo resultado nem ele,
o próprio sonhador, sabe.



Autoria: Olívia Braschi

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ser enigma

A vida flui e forma uma trilha na existencia
O rio desçe e dança o seu caminho para o mar
Os dedos passeiam pelos cabelos
Os passarinhos brincam no azul do céu
Os sorrisos iluminam o Ser
O Sol brilha na noite
Os lábios desenham na pele
Os pés e passos traçam a senda
Cada ser amado é um Universo a ser desvendado.



Autoria: Olívia Braschi

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Momento em suspenso

Do som e fúria se fez o vazio
Míseros segundo de plena solidão
Interna contemplação
O mar que virou sertão
Sem oxigênio, o suspiro
Sem timbre, o gemido
Nem riso, nem pranto
Apenas lábios mansos.


Autoria: Olívia Braschi

sábado, 8 de dezembro de 2012

Sobre o tempo

Ah, Sr. Khronos!
A ilusão de sua existência cumpre o seu papel
Sem ela não saberíamos o que foi nem o que ainda não é.
Apenas tú tem o poder da sutura,
Consegue curar as chagas, cicatrizar as feridas.
Apenas tú tem o poder de revelação
Tua passagem mostra quem é quem
E somente tú envidencia o propósito de cada evento.
Então quando inexistente,
Nos ensina que nada é, tudo está

Que a vida flui através de nós
Numa dança constante e infinita,
Um presente que nos é dado
Momento a momento.


Autoria: Olívia Braschi