terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Não tenhas nada nas mãos




Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que Átropos to não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 
Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio.


Ricardo Reis - 19/06/1914 
(Fernando Pessoa)

domingo, 27 de janeiro de 2013

Juramento da Bruxa


Que eu seja como a que tece o pano
na floresta, profundamente escondida.
Que eu possa fazer o meu trabalho sem interrupção. 
Que eu seja uma exilada, se este é o sacrifício. 
Que eu conheça a procissão sazonada do meu espírito e do meu corpo, e possa celebrar os quartos em cruz, solstícios e equinócios. 
Que cada Lua Cheia me encontre a olhar para cima, nas árvores desenhadas no céu luminoso. 
Que eu possa acariciar flores selvagens, cobri-las com as mãos. 
Que eu possa libertá-las, sem apanhar nenhuma, para viver em abundância. 
Que meus amigos sejam da espécie que ama o silêncio. 
Que sejamos inocentes e despretensiosos. 
Que eu seja capaz de gratidão. 
Que eu saiba ter recebido a alegria, como o leite materno. 
Que eu saiba isso como o meu gato, no sangue e nos ossos. 
Que eu fale a verdade sobre a alegria e a dor, em canções que soem como o aroma do alecrim, como todo o dia e na antiguidade, erva forte da cozinha. 
Que eu não me incline à auto-integridade e a auto-piedade. 
Que eu possa me aproximar dos altos trabalhos da terra e dos círculos de pedra, como raposa ou mariposa, e não perturbar o lugar mais que isso. 
Que meu olhar seja direto e minha mão firme. 
Que minha porta se abra àqueles que habitam fora da riqueza, da fama e do privilégio. 
Que os que jamais andaram descalços não encontrem o caminho que chega a minha porta. 
Que se percam na jornada labiríntica. 
Que eles voltem. 
Que eu me sente ao lado do fogo no inverno e veja as chamas brilhando para o que vier, e nunca tenha necessidade de advertir ou aconselhar, sem que me peçam. 
Que eu possa ter um simples banco de madeira, com verdadeiro regozijo. 
Que o lugar onde habito seja como uma floresta. 
Que haja caminhos e veredas para as cavernas e poços e árvores e flores, animais e pássaros, todos conhecidos e por mim reverenciados com amor. 
Que minha existência mude o mundo não mais nem menos do que o soprar do vento, ou o orgulhoso crescer das árvores. 
Por isso, eu jogo fora a minha roupa. 
Que eu possa conservar a fé, sempre! 
Que jamais encontre desculpas para o oportunismo. 
Que eu saiba que não tenho opção, e assim mesmo escolha como a cantiga é feita, em alegria e com amor. 
Que eu faça a mesma escolha todos os dias e de novo. 
Quando falhar, que eu me conceda o perdão. 
Que eu dance nua, sem medo de enfrentar meu próprio reflexo. 

Autora: Rae Beth

sábado, 26 de janeiro de 2013

Cântigo Negro

de José Régio

‎"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Fio

Amplo e largo
pode ser o caminho em nosso encargo.
Porém, quando se acende a luz,
Percebe-se que a amplitude se reduz.

Se reduz tanto,
Que para o refúgio não há canto.
E pensa: “não sei onde estou e não me encaixo,
Nem acima e nem abaixo”.

Por isso a espada,
Das armas a mais elevada,
Tem a função de cortar.
Adquirindo o poder de dois lados separar.

Dessa questão nunca consegui fugir.
Pois poderia contundir,
De várias formas ferir.

Porém corta.
“Que mistério ela exorta?”

Separar a esquerda da direita
Através de sua passada estreita...
Então percebo que demonstra sempre a que veio
Ao revelar de tudo o meio.

Aqueles que caminham apreendem o que digo.
Sobre isso que persigo.
E como outros persiste,
Em direção ao que não existe.

Por um caminho estreito como a passada da espada
Até a manifestação do nada.
Que passa entre a direita e a esquerda,
Através do fio...do fio da espada.

Autoria: Elton Almeida

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Velha Opinião

Como o dedilhar inspirado
No violão de um velho músico.
Como um coração cansado
Que anseia a volta do lúdico.

Como a escrita de um poema
Sem um poeta,
Baseado em algum teorema,
De quem andou de forma reta.

Como um eremita em um deserto,
Seguindo firme e agonizante ao oásis mais perto.
Como a busca pelo invisível,
Ainda que tímido e vívido
O buscador do incognoscível.

Como quem quebra as regras,
E em terra fértil semeia,
Para fugir da areia
E firmar o pé nas pedras.

Como a flama. Sim! A flama.
Que seja mais que eterna essa chama
Para poder dizer não,
A auto consideração
E alimentar em meu coração
Aquela velha opinião.

Autoria: Elton Almeida

domingo, 6 de janeiro de 2013

Perceber

Quanto mais forte é a luz
mais negra é a sombra...

O Mal?
Esse não existe...
fora de ti!
Se esforce pra vê
a beleza da flor
que brota da lama

Não se impressione com o Mal
pois esse não existe
fora de ti!
Procure percebe
não procure o Bem
só porque lhe da prazer.

Meu maior inimigo é Eu
Meu maior aliado é Perceber


 Autor: Douglas A. Remonatto
(Junho de 2005)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Choro à capela

de Adélia Prado

"O poder que eu quisera é dominar meu medo
Por este grande Dom troco meus dedos, meu verso,
meus anéis, meu colar;
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.


Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.


Mas venho e vou,
"os lobos tristes" a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.

As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero."