sábado, 26 de janeiro de 2013

Cântigo Negro

de José Régio

‎"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Fio

Amplo e largo
pode ser o caminho em nosso encargo.
Porém, quando se acende a luz,
Percebe-se que a amplitude se reduz.

Se reduz tanto,
Que para o refúgio não há canto.
E pensa: “não sei onde estou e não me encaixo,
Nem acima e nem abaixo”.

Por isso a espada,
Das armas a mais elevada,
Tem a função de cortar.
Adquirindo o poder de dois lados separar.

Dessa questão nunca consegui fugir.
Pois poderia contundir,
De várias formas ferir.

Porém corta.
“Que mistério ela exorta?”

Separar a esquerda da direita
Através de sua passada estreita...
Então percebo que demonstra sempre a que veio
Ao revelar de tudo o meio.

Aqueles que caminham apreendem o que digo.
Sobre isso que persigo.
E como outros persiste,
Em direção ao que não existe.

Por um caminho estreito como a passada da espada
Até a manifestação do nada.
Que passa entre a direita e a esquerda,
Através do fio...do fio da espada.

Autoria: Elton Almeida

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Velha Opinião

Como o dedilhar inspirado
No violão de um velho músico.
Como um coração cansado
Que anseia a volta do lúdico.

Como a escrita de um poema
Sem um poeta,
Baseado em algum teorema,
De quem andou de forma reta.

Como um eremita em um deserto,
Seguindo firme e agonizante ao oásis mais perto.
Como a busca pelo invisível,
Ainda que tímido e vívido
O buscador do incognoscível.

Como quem quebra as regras,
E em terra fértil semeia,
Para fugir da areia
E firmar o pé nas pedras.

Como a flama. Sim! A flama.
Que seja mais que eterna essa chama
Para poder dizer não,
A auto consideração
E alimentar em meu coração
Aquela velha opinião.

Autoria: Elton Almeida

domingo, 6 de janeiro de 2013

Perceber

Quanto mais forte é a luz
mais negra é a sombra...

O Mal?
Esse não existe...
fora de ti!
Se esforce pra vê
a beleza da flor
que brota da lama

Não se impressione com o Mal
pois esse não existe
fora de ti!
Procure percebe
não procure o Bem
só porque lhe da prazer.

Meu maior inimigo é Eu
Meu maior aliado é Perceber


 Autor: Douglas A. Remonatto
(Junho de 2005)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Choro à capela

de Adélia Prado

"O poder que eu quisera é dominar meu medo
Por este grande Dom troco meus dedos, meu verso,
meus anéis, meu colar;
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.


Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.


Mas venho e vou,
"os lobos tristes" a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.

As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero."

domingo, 30 de dezembro de 2012

Urgências Noturnas

Durante o dia, por mim
as horas passam faceiras,
já as noturnas
nunca me perdoam.
 

Esse é o mal de todo louco:
ser um tanto lunático, dual,
cíclico e temperamental.
 

Há temperos, ervas e fogos;
alquimias sem receita
cujo resultado nem ele,
o próprio sonhador, sabe.



Autoria: Olívia Braschi

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ser enigma

A vida flui e forma uma trilha na existencia
O rio desçe e dança o seu caminho para o mar
Os dedos passeiam pelos cabelos
Os passarinhos brincam no azul do céu
Os sorrisos iluminam o Ser
O Sol brilha na noite
Os lábios desenham na pele
Os pés e passos traçam a senda
Cada ser amado é um Universo a ser desvendado.



Autoria: Olívia Braschi