domingo, 30 de dezembro de 2012

Urgências Noturnas

Durante o dia, por mim
as horas passam faceiras,
já as noturnas
nunca me perdoam.
 

Esse é o mal de todo louco:
ser um tanto lunático, dual,
cíclico e temperamental.
 

Há temperos, ervas e fogos;
alquimias sem receita
cujo resultado nem ele,
o próprio sonhador, sabe.



Autoria: Olívia Braschi

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ser enigma

A vida flui e forma uma trilha na existencia
O rio desçe e dança o seu caminho para o mar
Os dedos passeiam pelos cabelos
Os passarinhos brincam no azul do céu
Os sorrisos iluminam o Ser
O Sol brilha na noite
Os lábios desenham na pele
Os pés e passos traçam a senda
Cada ser amado é um Universo a ser desvendado.



Autoria: Olívia Braschi

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Momento em suspenso

Do som e fúria se fez o vazio
Míseros segundo de plena solidão
Interna contemplação
O mar que virou sertão
Sem oxigênio, o suspiro
Sem timbre, o gemido
Nem riso, nem pranto
Apenas lábios mansos.


Autoria: Olívia Braschi

sábado, 8 de dezembro de 2012

Sobre o tempo

Ah, Sr. Khronos!
A ilusão de sua existência cumpre o seu papel
Sem ela não saberíamos o que foi nem o que ainda não é.
Apenas tú tem o poder da sutura,
Consegue curar as chagas, cicatrizar as feridas.
Apenas tú tem o poder de revelação
Tua passagem mostra quem é quem
E somente tú envidencia o propósito de cada evento.
Então quando inexistente,
Nos ensina que nada é, tudo está

Que a vida flui através de nós
Numa dança constante e infinita,
Um presente que nos é dado
Momento a momento.


Autoria: Olívia Braschi

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O


Escute, que em tudo Deus grita
Ooooooooooo
No vento que sacode as folhas e faz planar os pássaros
Deus grita no Ovo
Deus nos cativa ao vôo
Teu coração irmão
No teu peito se encontra o vôo silencioso 
Filipe Zander 


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

justificação de Deus



o que eu chamo de Deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de Deus. um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimento dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam pra construir contra a água.
também chamei de Deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
e é ainda a palavra Deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes
o que eu chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa.


Leonardo Fróes - sibilitz (1981)

domingo, 4 de novembro de 2012

Senhor, meu passo está no Limiar



Senhor, meu passo está no Limiar
        Da Tua Porta.
Faz-me humilde ante o que vou legar...
        Meu mero ser que importa?
Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
        De Ti em mim,
Faz que eu seja o claro e humilde engenho
        Que revela o teu Fim.
Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
        Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
        E acaba em Ti.
Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
        - Verdade e Lei -
O resto sou só eu e o ermo mundo...
        E o que revelarei.
A névoa sobe do alto da montanha
        E ergue-se à luz
O claro cimo que a Tua luz banha
        Sereno e claro e a flux
Eu quero ser a névoa que se ergue
        Para te ver
A humanidade sofredora é cega -
        O resto é apenas ser...


Fernando Pessoa, 16-11-1915
Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.  - 75.