segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O


Escute, que em tudo Deus grita
Ooooooooooo
No vento que sacode as folhas e faz planar os pássaros
Deus grita no Ovo
Deus nos cativa ao vôo
Teu coração irmão
No teu peito se encontra o vôo silencioso 
Filipe Zander 


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

justificação de Deus



o que eu chamo de Deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de Deus. um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimento dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam pra construir contra a água.
também chamei de Deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
e é ainda a palavra Deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes
o que eu chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa.


Leonardo Fróes - sibilitz (1981)

domingo, 4 de novembro de 2012

Senhor, meu passo está no Limiar



Senhor, meu passo está no Limiar
        Da Tua Porta.
Faz-me humilde ante o que vou legar...
        Meu mero ser que importa?
Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
        De Ti em mim,
Faz que eu seja o claro e humilde engenho
        Que revela o teu Fim.
Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
        Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
        E acaba em Ti.
Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
        - Verdade e Lei -
O resto sou só eu e o ermo mundo...
        E o que revelarei.
A névoa sobe do alto da montanha
        E ergue-se à luz
O claro cimo que a Tua luz banha
        Sereno e claro e a flux
Eu quero ser a névoa que se ergue
        Para te ver
A humanidade sofredora é cega -
        O resto é apenas ser...


Fernando Pessoa, 16-11-1915
Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.  - 75.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Tempo No Tempo


Há sempre um tempo no tempo em que o corpo do homem apodrece
E sua alma cansada, penada, se afunda no chão
E o bruxo do luxo baixado o capucho chorando num nicho capacho do lixo
Caprichos não mais voltarão
Já houve um tempo em que o tempo parou de passar
E um tal de homo sapiens não soube disso aproveitar
Chorando, sorrindo, falando em calar
Pensando em pensar quando o tempo parar de passar

Há sempre um tempo no tempo em que o corpo do homem apodrece
E sua alma cansada, penada, se afunda no chão
E o bruxo do luxo baixado o capucho chorando num nicho capacho do lixo
Caprichos não mais voltarão
Mas se entre lágrimas você se achar e pensar que está a chorar
Este era o tempo em que o tempo é

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Seiscentos e Sessenta e Seis















A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.


Autor: Mario Quintana 

sábado, 29 de setembro de 2012

Um Cavaleiro na Tempestade



- Quem é quem chega a estas horas
que insiste a demora
na porta a bater?
bandidos vagam às escuras
da noite à procura
de quem mal fazer

- abrí-me a porta ó senhora
um instante é a demora
só enquanto sossega
o corcel que transporta-me
através de tempos espaços e eras
sem poder negar a animal condição
medo ao fulgir do raio
e o rugir feroz do trovão
não temais pela donzela
da alcova as janelas travadas estão
o perigo é a descrença
e o inimigo avança
num mundo em falência
abrí-me senhora
porta ou consciência
não ouves cá fora
o rugir do trovão?

- buscam na noite os morcegos
sem trégua e sossego
o sangue a volar
em forma de anjo os demônios
com ardis mais medonhos
nos tentam enganar

- saí de vossos cuidados
por armas não porto
nem punhais nem dardos letais
só a espada de luz
a palavra do Sagrado Mestre
que vos acalenta
em vossas aflições
que bane a insegurança
respondo a paz nos corações

- mesmo em face à tempestade
é uma temeridade
vos a porta abrir
vejo a tormenta já é finda
no vadis ainda mais eu quero ouvir

- eis que é cessada a procela
vou indo embora
ao lume da estrela
meu nome? Se importa
assenteis nos livros
de anais desta Casa
quem em noite varrida
pela tempestade
negastes guarida
aos guardiões da vida
a Fé e a Esperança
e a própria Caridade...


Composição de Elomar Figueira Mello

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ave Lúcifer

As maçãs envolvem os corpos nus
Nesse rio que corre em veias mansas, dentro de mim
Anjos e Arcanjos não pousam neste Édem infernal
E a flecha do selvagem matou mil aves no ar

Quieta, a serpente se enrola nos seus pés
É Lúcifer da floresta que tenta me abraçar

Vem amor, que um paraíso num abraço amigo,
sorrirá pra nós, sem ninguém nos ver

Prometo abrir meu amor macio, como uma flor cheia de mel
pra te embriagar, sem ninguém nos ver

Tragam uvas negras
Tragam festas e flores
Tragam corpos e dores
Tragam incensos e odores

Mas tragam Lúcifer pra mim
Em uma bandeja pra mim.


Composição: Os Mutantes 


Nota: Por causa da censura, uma palavra da canção foi cortada, que é "abrir" (na 4ª estrofe). Faz uma referência ao órgão genital feminino.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Minha Elegia

No porto do adeus sidéreo
Deixo-te minha lira de Orfeu
Foi nas vagas do azul etéreo
que te disse o ultimo adeus

Içam os mastros dourados
intumesce as velas o sopro do ar
inefável adeus suspirado
Já espera você regressar

Nas vagas desventuras vivi
triste destino proscrito
Velejando lugares inóspitos
lúgubre sina longe de ti

Algoz plagas de tritão
Marulho tétrico a me arremessar
é preferível o caixão
que a procela deste mar.

Ébria noites de saudades
lânguidas dores pelo corpo

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Medíocre-idades

Medíocre são as recordações
Presentes da idade
Extrato da destilação do tempo
Que feito faca corta
Penetra cada centímetro de segundos
Assim devasta a vida
Provoca dor e nos presenteia a cicatriz, que é um epitáfio
Lembranças, mediocridades
Migalhas da vida
Se a vida é um pão de trigo
Se, é o alimento do banquete sagrado
A nós sobrou apenas o rastro do tempo
Migalhas, ainda que se coma todas
Pois não se come a vida inteira
A qual é cuspida no parto
E se espalha feito bolas de sabão
Divide-se e é sentida a tics e tacs
Letras, segundos, notas, unidades
Ah! Vida, como é sem graça
E a overdose mata
Só nos sobra à verdade
O pão inteiro
Que não se dá as migalhas
A verdade, tudo e nada mais
Presente de Deus
Sovado pelo homem
E presenteado ao Filosofo
Aquele que esta entre os deuses e os homens

Autor: Filipe Zander

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Deus duplo



Que Deus duplo nos pôs na alma sensível
Ao mesmo tempo os dons de conhecer
Que o mal é a norma, o natural possível,
E de querer o bem, inútil nível,
Que nunca assenta regular no ser?

Com que fria esquadria e vão compasso
Que invisível Geómetra regrou
As marés deste mar de mau sargaço —
O mundo fluido, com seu tempo e espaço,
Que ele mesmo não sabe quem criou?

Mas, seja como for, nesta descida
De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;
E o Bem, justiça espiritual da vida,
É perdida palavra, substituída
Por bens obscuros, fórmulas do acaso.

Que plano extinto, antes de conseguido,
Ficou só mundo, norma e desmazelo?
Mundo imperfeito, porque foi erguido?
Como acabá-lo, templo inconcluído,
Se nos falta o segredo com que erguê-lo?

O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele
Que, esse Deus exumado, reflectiu
A morte e a exumação que houveram dele.
Mas está perdido o selo com que sele
Seu pacto com o vivo que caiu.

Por isso, em sombra e natural desgraça,
Tem que buscar aquilo que perdeu —
Não ela, mas a morte que a repassa,
E vem achar no Verbo a fé e a graça —
A nova vida do que já morreu.

Porque o Verbo é quem Deus era primeiro,
Antes que a morte, que o tornou o mundo,
Corrompesse de mal o mundo inteiro:
E assim no Verbo, que é o Deus terceiro,
A alma volve ao Bem que é o seu fundo.

Fernando Pessoa (26-4-1934)
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  - 101.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Morte


Quando o braço é a terra
Mãe ingrata que dá a luz e nunca abraça 
Que aguarda, ri e come cada filho 
Mãe que envolve e guarda que destrói e mistura 
Que recebe lagrimas 
Das quais nasce espada, nasce fogo 
Nasce a mata
e mata 
Mãe ingrata
Não só gera, mas sustenta 
Dá esperança 
Que guerra é essa?
que se sustenta entre cada pé e cada pedaço de terra
A vida, quase uma maldição!
Tendo cor azul parece negra 
Feito o céu que mostra estrelas
É essa vida, negra, maldita 
Dos filhos ingratos 
Poetas e profanos 
Mal gerados, mal nascidos
O mal sustentado pela terra 
que provoca guerra 
E desperta cada fera 
Fera, fera, fera
Que não querem se entregar ao ultimo abraço 
derradeiro e envolvente abraço 
materno
mãe, mãe terra
há que te amar, antes que seja terra
  

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Infernum


Quando eu me encontrava na metade do caminho da vida, 
me vi perdido em uma selva escura, 
e a minha vida não mais seguia o caminho certo. 

Ah, como é difícil descrevê-la! 
Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, 
que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. 
Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. 
Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, 
terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.

Eu não sei como fui parar naquele lugar sombrio. 
Sonolento como eu estava, 
devo ter dormido e por isso me afastei do verdadeiro caminho. 


Autor: Dante Alighieri  
Divina Commedia, I Canto


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

De(u)spertar



Quanto mais incompreensível,
mais verdadeiro.

Quando mais inconcebível,
mais real.

Quanto mais inexplicável,
mais evidente.


Autor: Karina Andréa Tarca

domingo, 12 de agosto de 2012

Eu, eu mesmo...


Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.
Eu...

Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...

Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...

Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...


Autor; Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

As Palavras

As palavras saem quase sem querer
Rezam por nós dois
Tome conta do que vai dizer
Elas estão dentro dos meus olhos
Da minha boca, dos meus ombros.
Se quiser ouvir
É fácil perceber

Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem
E não ser meu mal
Reabilite o meu coração

Tentei
Rasguei sua alma e pus no fogo
Não assoprei
Não relutei
Os buracos que eu cavei
Não quis rever
Mas o amargo delas resvalou em mim
Não deu direito de viver em paz
Estou aqui pra te pedir perdão

Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem
E não ser meu mal
Reabilite o meu coração

As palavras fogem
Se você deixar
O impacto é grande demais
Cidades inteiras nascem a partir daí
Violentam, enlouquecem, ou me fazem dormir
Adoecem, curam ou me dão limites
Vá com carinho no que vai dizer 


composição de Vanessa da Mata

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Última Visio



   Quando o homem resgatado da cegueira
   Vir Deus num simples grão de argila errante,
   Terá nascido nesse mesmo instante
   A mineralogia derradeira!

   A impérvia escuridão obnubilante
   Há de cessar! Em sua glória inteira
   Deus resplandecerá dentro da poeira
   Como um gasofiláceo de diamante!

   Nessa última visão já subterrânea,
   Um movimento universal de insânia
   Arrancará da insciência o homem precito...

   A Verdade virá das pedras mortas
   E o homem compreenderá todas as portas
   Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!



   (Augusto dos Anjos -1884/1914)


domingo, 22 de julho de 2012

Sob o silêncio dos céus...



Porque choras de que existe
A terra e o que a terra tem?
Tudo nosso – mal ou bem –
É fictício e só persiste
Porque a alma aqui é ninguém.

Não chores! Tudo é o nada
Onde os astros luzes são.
Tudo é lei e confusão.
Toma este mundo por strada

E vai como os santos vão.

Levantado de onde lavra
O inferno em que somos réus
Sob o silêncio dos céus,
Encontrarás a Palavra,
O Nome interno de Deus.

E, além da dupla unidade
Do que em dois sexos mistura
A ventura e a desventura,
O sonho e a realidade,
Serás quem já não procura.

Porque, limpo do Universo,
Em Christo nosso Senhor,
Por sua verdade e amor,
Reunirás o disperso
E a Cruz abrirá em Flor. 



Fernando Pessoa

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Astrologia


Minha estrela não é a de Belém:
A que, parada, aguarda o peregrino.
Sem importar-se com qualquer destino.
A minha estrela vai seguindo além...

 Meu Deus, o que é que esse menino tem? 
Já suspeitavam desde eu pequenino.
O que eu tenho? 
É uma estrela em desatino...
E nos desentendemos muito bem!

E quando tudo parecia a mesmo 
E nesses descaminhos me perdia.
Encontrei muitas vezes a mim mesmo...
Eu temo é uma traição do instinto 
Que me liberte, por acaso, um dia 
Deste velho e encantado Labirinto. 


Autoria: Mario Quintana

ouvir este poema musicado por Lui Coimbra aqui 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa
Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 418.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ser-tezas


Há mundos superiores e há mundos inferiores a esse
como tanta certeza quanto
há flores e há feridas.

Há Deuses e há Demônios
com tanta certeza quanto
há cachoeiras e há refrigerantes.

Há Demônios que se convertem em Deuses
com tanta certeza quanto
o calor é quem promove a brisa.

Há Deuses que se convertem em Demônios
Com tanta certeza quanto
Há pessoas que lêem poesia.


Autor: Douglas A. Remonatto