sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Seiscentos e Sessenta e Seis















A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.


Autor: Mario Quintana 

sábado, 29 de setembro de 2012

Um Cavaleiro na Tempestade



- Quem é quem chega a estas horas
que insiste a demora
na porta a bater?
bandidos vagam às escuras
da noite à procura
de quem mal fazer

- abrí-me a porta ó senhora
um instante é a demora
só enquanto sossega
o corcel que transporta-me
através de tempos espaços e eras
sem poder negar a animal condição
medo ao fulgir do raio
e o rugir feroz do trovão
não temais pela donzela
da alcova as janelas travadas estão
o perigo é a descrença
e o inimigo avança
num mundo em falência
abrí-me senhora
porta ou consciência
não ouves cá fora
o rugir do trovão?

- buscam na noite os morcegos
sem trégua e sossego
o sangue a volar
em forma de anjo os demônios
com ardis mais medonhos
nos tentam enganar

- saí de vossos cuidados
por armas não porto
nem punhais nem dardos letais
só a espada de luz
a palavra do Sagrado Mestre
que vos acalenta
em vossas aflições
que bane a insegurança
respondo a paz nos corações

- mesmo em face à tempestade
é uma temeridade
vos a porta abrir
vejo a tormenta já é finda
no vadis ainda mais eu quero ouvir

- eis que é cessada a procela
vou indo embora
ao lume da estrela
meu nome? Se importa
assenteis nos livros
de anais desta Casa
quem em noite varrida
pela tempestade
negastes guarida
aos guardiões da vida
a Fé e a Esperança
e a própria Caridade...


Composição de Elomar Figueira Mello

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ave Lúcifer

As maçãs envolvem os corpos nus
Nesse rio que corre em veias mansas, dentro de mim
Anjos e Arcanjos não pousam neste Édem infernal
E a flecha do selvagem matou mil aves no ar

Quieta, a serpente se enrola nos seus pés
É Lúcifer da floresta que tenta me abraçar

Vem amor, que um paraíso num abraço amigo,
sorrirá pra nós, sem ninguém nos ver

Prometo abrir meu amor macio, como uma flor cheia de mel
pra te embriagar, sem ninguém nos ver

Tragam uvas negras
Tragam festas e flores
Tragam corpos e dores
Tragam incensos e odores

Mas tragam Lúcifer pra mim
Em uma bandeja pra mim.


Composição: Os Mutantes 


Nota: Por causa da censura, uma palavra da canção foi cortada, que é "abrir" (na 4ª estrofe). Faz uma referência ao órgão genital feminino.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Minha Elegia

No porto do adeus sidéreo
Deixo-te minha lira de Orfeu
Foi nas vagas do azul etéreo
que te disse o ultimo adeus

Içam os mastros dourados
intumesce as velas o sopro do ar
inefável adeus suspirado
Já espera você regressar

Nas vagas desventuras vivi
triste destino proscrito
Velejando lugares inóspitos
lúgubre sina longe de ti

Algoz plagas de tritão
Marulho tétrico a me arremessar
é preferível o caixão
que a procela deste mar.

Ébria noites de saudades
lânguidas dores pelo corpo

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Medíocre-idades

Medíocre são as recordações
Presentes da idade
Extrato da destilação do tempo
Que feito faca corta
Penetra cada centímetro de segundos
Assim devasta a vida
Provoca dor e nos presenteia a cicatriz, que é um epitáfio
Lembranças, mediocridades
Migalhas da vida
Se a vida é um pão de trigo
Se, é o alimento do banquete sagrado
A nós sobrou apenas o rastro do tempo
Migalhas, ainda que se coma todas
Pois não se come a vida inteira
A qual é cuspida no parto
E se espalha feito bolas de sabão
Divide-se e é sentida a tics e tacs
Letras, segundos, notas, unidades
Ah! Vida, como é sem graça
E a overdose mata
Só nos sobra à verdade
O pão inteiro
Que não se dá as migalhas
A verdade, tudo e nada mais
Presente de Deus
Sovado pelo homem
E presenteado ao Filosofo
Aquele que esta entre os deuses e os homens

Autor: Filipe Zander

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Deus duplo



Que Deus duplo nos pôs na alma sensível
Ao mesmo tempo os dons de conhecer
Que o mal é a norma, o natural possível,
E de querer o bem, inútil nível,
Que nunca assenta regular no ser?

Com que fria esquadria e vão compasso
Que invisível Geómetra regrou
As marés deste mar de mau sargaço —
O mundo fluido, com seu tempo e espaço,
Que ele mesmo não sabe quem criou?

Mas, seja como for, nesta descida
De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;
E o Bem, justiça espiritual da vida,
É perdida palavra, substituída
Por bens obscuros, fórmulas do acaso.

Que plano extinto, antes de conseguido,
Ficou só mundo, norma e desmazelo?
Mundo imperfeito, porque foi erguido?
Como acabá-lo, templo inconcluído,
Se nos falta o segredo com que erguê-lo?

O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele
Que, esse Deus exumado, reflectiu
A morte e a exumação que houveram dele.
Mas está perdido o selo com que sele
Seu pacto com o vivo que caiu.

Por isso, em sombra e natural desgraça,
Tem que buscar aquilo que perdeu —
Não ela, mas a morte que a repassa,
E vem achar no Verbo a fé e a graça —
A nova vida do que já morreu.

Porque o Verbo é quem Deus era primeiro,
Antes que a morte, que o tornou o mundo,
Corrompesse de mal o mundo inteiro:
E assim no Verbo, que é o Deus terceiro,
A alma volve ao Bem que é o seu fundo.

Fernando Pessoa (26-4-1934)
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  - 101.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Morte


Quando o braço é a terra
Mãe ingrata que dá a luz e nunca abraça 
Que aguarda, ri e come cada filho 
Mãe que envolve e guarda que destrói e mistura 
Que recebe lagrimas 
Das quais nasce espada, nasce fogo 
Nasce a mata
e mata 
Mãe ingrata
Não só gera, mas sustenta 
Dá esperança 
Que guerra é essa?
que se sustenta entre cada pé e cada pedaço de terra
A vida, quase uma maldição!
Tendo cor azul parece negra 
Feito o céu que mostra estrelas
É essa vida, negra, maldita 
Dos filhos ingratos 
Poetas e profanos 
Mal gerados, mal nascidos
O mal sustentado pela terra 
que provoca guerra 
E desperta cada fera 
Fera, fera, fera
Que não querem se entregar ao ultimo abraço 
derradeiro e envolvente abraço 
materno
mãe, mãe terra
há que te amar, antes que seja terra