terça-feira, 28 de agosto de 2012

Morte


Quando o braço é a terra
Mãe ingrata que dá a luz e nunca abraça 
Que aguarda, ri e come cada filho 
Mãe que envolve e guarda que destrói e mistura 
Que recebe lagrimas 
Das quais nasce espada, nasce fogo 
Nasce a mata
e mata 
Mãe ingrata
Não só gera, mas sustenta 
Dá esperança 
Que guerra é essa?
que se sustenta entre cada pé e cada pedaço de terra
A vida, quase uma maldição!
Tendo cor azul parece negra 
Feito o céu que mostra estrelas
É essa vida, negra, maldita 
Dos filhos ingratos 
Poetas e profanos 
Mal gerados, mal nascidos
O mal sustentado pela terra 
que provoca guerra 
E desperta cada fera 
Fera, fera, fera
Que não querem se entregar ao ultimo abraço 
derradeiro e envolvente abraço 
materno
mãe, mãe terra
há que te amar, antes que seja terra
  

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Infernum


Quando eu me encontrava na metade do caminho da vida, 
me vi perdido em uma selva escura, 
e a minha vida não mais seguia o caminho certo. 

Ah, como é difícil descrevê-la! 
Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, 
que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. 
Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. 
Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, 
terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.

Eu não sei como fui parar naquele lugar sombrio. 
Sonolento como eu estava, 
devo ter dormido e por isso me afastei do verdadeiro caminho. 


Autor: Dante Alighieri  
Divina Commedia, I Canto


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

De(u)spertar



Quanto mais incompreensível,
mais verdadeiro.

Quando mais inconcebível,
mais real.

Quanto mais inexplicável,
mais evidente.


Autor: Karina Andréa Tarca

domingo, 12 de agosto de 2012

Eu, eu mesmo...


Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.
Eu...

Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...

Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...

Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...


Autor; Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

As Palavras

As palavras saem quase sem querer
Rezam por nós dois
Tome conta do que vai dizer
Elas estão dentro dos meus olhos
Da minha boca, dos meus ombros.
Se quiser ouvir
É fácil perceber

Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem
E não ser meu mal
Reabilite o meu coração

Tentei
Rasguei sua alma e pus no fogo
Não assoprei
Não relutei
Os buracos que eu cavei
Não quis rever
Mas o amargo delas resvalou em mim
Não deu direito de viver em paz
Estou aqui pra te pedir perdão

Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem
E não ser meu mal
Reabilite o meu coração

As palavras fogem
Se você deixar
O impacto é grande demais
Cidades inteiras nascem a partir daí
Violentam, enlouquecem, ou me fazem dormir
Adoecem, curam ou me dão limites
Vá com carinho no que vai dizer 


composição de Vanessa da Mata

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Última Visio



   Quando o homem resgatado da cegueira
   Vir Deus num simples grão de argila errante,
   Terá nascido nesse mesmo instante
   A mineralogia derradeira!

   A impérvia escuridão obnubilante
   Há de cessar! Em sua glória inteira
   Deus resplandecerá dentro da poeira
   Como um gasofiláceo de diamante!

   Nessa última visão já subterrânea,
   Um movimento universal de insânia
   Arrancará da insciência o homem precito...

   A Verdade virá das pedras mortas
   E o homem compreenderá todas as portas
   Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!



   (Augusto dos Anjos -1884/1914)


domingo, 22 de julho de 2012

Sob o silêncio dos céus...



Porque choras de que existe
A terra e o que a terra tem?
Tudo nosso – mal ou bem –
É fictício e só persiste
Porque a alma aqui é ninguém.

Não chores! Tudo é o nada
Onde os astros luzes são.
Tudo é lei e confusão.
Toma este mundo por strada

E vai como os santos vão.

Levantado de onde lavra
O inferno em que somos réus
Sob o silêncio dos céus,
Encontrarás a Palavra,
O Nome interno de Deus.

E, além da dupla unidade
Do que em dois sexos mistura
A ventura e a desventura,
O sonho e a realidade,
Serás quem já não procura.

Porque, limpo do Universo,
Em Christo nosso Senhor,
Por sua verdade e amor,
Reunirás o disperso
E a Cruz abrirá em Flor. 



Fernando Pessoa