segunda-feira, 20 de agosto de 2012

De(u)spertar



Quanto mais incompreensível,
mais verdadeiro.

Quando mais inconcebível,
mais real.

Quanto mais inexplicável,
mais evidente.


Autor: Karina Andréa Tarca

domingo, 12 de agosto de 2012

Eu, eu mesmo...


Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.
Eu...

Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...

Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...

Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...


Autor; Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

As Palavras

As palavras saem quase sem querer
Rezam por nós dois
Tome conta do que vai dizer
Elas estão dentro dos meus olhos
Da minha boca, dos meus ombros.
Se quiser ouvir
É fácil perceber

Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem
E não ser meu mal
Reabilite o meu coração

Tentei
Rasguei sua alma e pus no fogo
Não assoprei
Não relutei
Os buracos que eu cavei
Não quis rever
Mas o amargo delas resvalou em mim
Não deu direito de viver em paz
Estou aqui pra te pedir perdão

Não me acerte
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem
E não ser meu mal
Reabilite o meu coração

As palavras fogem
Se você deixar
O impacto é grande demais
Cidades inteiras nascem a partir daí
Violentam, enlouquecem, ou me fazem dormir
Adoecem, curam ou me dão limites
Vá com carinho no que vai dizer 


composição de Vanessa da Mata

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Última Visio



   Quando o homem resgatado da cegueira
   Vir Deus num simples grão de argila errante,
   Terá nascido nesse mesmo instante
   A mineralogia derradeira!

   A impérvia escuridão obnubilante
   Há de cessar! Em sua glória inteira
   Deus resplandecerá dentro da poeira
   Como um gasofiláceo de diamante!

   Nessa última visão já subterrânea,
   Um movimento universal de insânia
   Arrancará da insciência o homem precito...

   A Verdade virá das pedras mortas
   E o homem compreenderá todas as portas
   Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!



   (Augusto dos Anjos -1884/1914)


domingo, 22 de julho de 2012

Sob o silêncio dos céus...



Porque choras de que existe
A terra e o que a terra tem?
Tudo nosso – mal ou bem –
É fictício e só persiste
Porque a alma aqui é ninguém.

Não chores! Tudo é o nada
Onde os astros luzes são.
Tudo é lei e confusão.
Toma este mundo por strada

E vai como os santos vão.

Levantado de onde lavra
O inferno em que somos réus
Sob o silêncio dos céus,
Encontrarás a Palavra,
O Nome interno de Deus.

E, além da dupla unidade
Do que em dois sexos mistura
A ventura e a desventura,
O sonho e a realidade,
Serás quem já não procura.

Porque, limpo do Universo,
Em Christo nosso Senhor,
Por sua verdade e amor,
Reunirás o disperso
E a Cruz abrirá em Flor. 



Fernando Pessoa

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Astrologia


Minha estrela não é a de Belém:
A que, parada, aguarda o peregrino.
Sem importar-se com qualquer destino.
A minha estrela vai seguindo além...

 Meu Deus, o que é que esse menino tem? 
Já suspeitavam desde eu pequenino.
O que eu tenho? 
É uma estrela em desatino...
E nos desentendemos muito bem!

E quando tudo parecia a mesmo 
E nesses descaminhos me perdia.
Encontrei muitas vezes a mim mesmo...
Eu temo é uma traição do instinto 
Que me liberte, por acaso, um dia 
Deste velho e encantado Labirinto. 


Autoria: Mario Quintana

ouvir este poema musicado por Lui Coimbra aqui 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa
Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 418.