terça-feira, 5 de junho de 2012

Nada te perturbe...



Nada te perturbe, 
Nada te espante, 
Tudo passa, 
Deus não muda. 
A paciência, 
Tudo consegue. 
Quem a Deus tem, 
Nada lhe falta, 
Só Deus é suficiente.

Eleva o Pensamento ao céu sobe
Por nada te angustie Nada te perturbe
A Jesus Cristo segue de coração entregue
E venha o que vier Nada te Espante

Vês a gloria do mundo?  E gloria vã
Nada tem de estável Tudo passa
Aspira as coisas celestes que sempre duram
Fiel e rico em promessas Deus não muda

Ama-O Como merece Bondade imensa
Mas não há verdadeiro amor sem a paciência
Confiança e fé viva mantenha a alma,
Que quem crê e espera Tudo alcança

Do Inferno acossado Muito embora se veja
Burlara os seus furores Quem a Deus Tem
Advenham-lhe desamparos, Cruzes, desgraças
Sendo Deus o seu tesouro Nada lhe falta

Ide pois bens do mundo Ide, ditas vãs
Ainda que tudo perca, Só Deus Basta.


Santa Teresa de Ávila

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sob o silêncio dos céus...



Porque choras de que existe
A terra e o que a terra tem?
Tudo nosso – mal ou bem –
É fictício e só persiste
Porque a alma aqui é ninguém.

Não chores! Tudo é o nada
Onde os astros luzes são.
Tudo é lei e confusão.
Toma este mundo por strada

E vai como os santos vão.

Levantado de onde lavra
O inferno em que somos réus
Sob o silêncio dos céus,
Encontrarás a Palavra,
O Nome interno de Deus.

E, além da dupla unidade
Do que em dois sexos mistura
A ventura e a desventura,
O sonho e a realidade,
Serás quem já não procura.

Porque, limpo do Universo,
Em Christo nosso Senhor,
Por sua verdade e amor,
Reunirás o disperso
E a Cruz abrirá em Flor. 


Fernando Pessoa

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Se


Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Autor: Rudyard Kipling

domingo, 20 de maio de 2012

Totem


Espírito selvagem e livre
saímos juntos do ventre da terra
e nos separamos ao raiar do dia…
Mas seguimos entrelaçados
como o instrumento e a melodia
por isso tua força segue aqui, vivendo
neste peito que pulsa,
revestido sob a pele que te oculta…
Agora vem
deixa para trás os portões de tua silenciosa morada
e vem compartilhar de meu mundo
ensina-me a reconhecer e seguir as pegadas
daquela esquecida,
esquisita,
antiga estrada…
Cura-me dos venenos que circulam em meu sangue
encharca de vida minha alma,
porque em ti está o melhor que eu posso chegar
e o desconhecido que em ti habita
é a parte de minha natureza mais pura
que clama por libertar-se
e assumir seu lugar,
em minha voz,
em meu olhar…


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Não sei quantas almas eu tenho



Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem acabei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem  alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê, 
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu. 
Cada meu sonho ou desejo 
É do que nasce e não meu. 
Sou minha própria paisagem; 
Assisto à minha passagem, 
Diverso, móbil e só, 
Não sei sentir-me onde estou.


Autor: Fernando Pessoa

sábado, 12 de maio de 2012

Hermes Trismegisto - Jorge Ben Jor


"Hermes Trismegisto escreveu
com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda
O que está embaixo é como o que está no alto,
e o que está no alto é como o que está embaixo.
E por essas coisas fazem-se os milagres de uma coisa só. 
E como todas essas coisas são e provêm de um
pela mediação do um, 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Tocar



Tocar um corpo
e o ar
e a língua de neve.

Tocar a erva
mortal e verde
de cinco noites
e o mar.

Um corpo nu.
E as praias fustigadas
pelo sol e o olhar.

As palavras, vício
torpe, antigo.

As últimas? As primeiras?

Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
doutras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
- nunca foram tão belas


Autor: Eugénio de Andrade ( 1923 )