segunda-feira, 12 de março de 2012

Mistério


O mistério que me envolve 
é uma força sobrenatural,
cujo influxo emerge 
dum turbilhão de sentimentos, 
que abarrota, possue, encharca,
acolhe e distribui… 

Que SER que me perdura, 
acalma, transforma e atrai… 

Que força que me sustenta, 
levita, transcende e irradia… 

Que mistério que envolve meu ser, 
sem ciência, sem consciência, 
numa relutância iracional, (a)histórico, 
por não observar, explicar e ter… 

Que mistério pleno, que não nego, por perpassar,
inexplicavelmente, todo o meu viver…


Autor: Maria Dorinha,
24/02/09.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Ser Mulher

Mulher 
Ser em mim
requer
fé sem fim

Lua que espelha
Luz de centelha
e o desafio prima
mistério, enigma

De ser tua
a missão mais pura
de trazer à Terra
o Homem que por ela

Precisa nascer
amar e crescer
divino exubera
ao chegar à meta

Simples Andrógena
essência Cósmica
riqueza interna

Que há de vir
da entrega
que advém da entrega


Composição: Chandra Lacombe 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Saudação ao amanhecer


Concentra-te neste dia que desponta!
Pois ele é a vida, 
A própria vida em seu breve curso. 
Jazem nele todas as verdades e realidades de tua existência: 
A felicidade de crescer, 
A glória de agir, 
O esplendor da beleza; 
Pois o dia de ontem é apenas um sonho 
E o amanhã uma visão, 
Mas o dia de hoje, bem vivido, 
Torna cada dia passado um sonho de felicidade 
E cada amanhã uma visão de esperança. 
Concentra-te, portanto, neste dia! 
Neste dia maravilhoso que desponta.


Do sânscrito, autor desconhecido, ano 300:

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Noite Escura


Poema  místico de S. João da Cruz (1578):

Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada,     
Oh, ditosa ventura!
Saí sem ser notada, 
Já minha casa estando sossegada. 

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,  
Oh, ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia,
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia, 
Em sítio onde ninguém aparecia. 

Oh, noite que me guiaste!
Oh, noite mais amável que a alvorada!
Oh, noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada! 

Em meu peito florido
Que, inteiro para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da ameia a brisa amena, 
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado; 
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.

Canções de S. João da Cruz (1542-1591) 
que descrevem o modo pelo qual o místico chega ao estado de perfeição espiritual.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sutra Do Girassol


Caminhei nas margens do abandonado cais de lata onde outrora 
descarregavam banana e fui sentar na sombra enorme de uma locomotiva lá perto 
para olhar e chorar o sol morrendo em ladeiras sobre as casas todas iguais. 
Jack amigo Kerouac sentou-se ao lado no ferro de um mastro roto partido 
e a gente caiu na maior fossa do mundo, os dois ilhados, dois contidos 
na rede das raízes de aço, 
e eu e Jack pensando os mesmos pensamentos da alma. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Homem; As Viagens


O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

Carlos Drummond de Andrade 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Corban


São sete mil léguas
imendada de camin
prêsse mundão largo
sem portêra vem o fim
só vejo na terra a moRte a rondá
peste mil infermidades
fome e guerra ai de mim
mil ventos da morte
estroncios letais
sete vacas magras
tragam as gordas nos currais
pelos sete cravos
das chagas do Siô
lastimos meus êrros
de grande pecadô
geme a terra ao rebentá das covas
branca e lira
mia noiva é a lua nova
ao sol peço clemença
qui esse chão quêma meus pé
quatro cavaleiros
de olhares crueis
prontos pra peleja
já cavalgam seuS corceis
de olhos para os ceus
só ispero Cristo vim
eis qui chegam os maus
tempos do grande fim
treme a terra pela última veiz
ais lamento
é vindo o Rei dos Reis
sol nunca seca meu pranto
qui é preu refrescá meus péis

Composição de Elomar Figueira Melo