domingo, 8 de janeiro de 2012

Como diria Blavatsky



Não sei olhar pra mim
Sem ser no espelho
Talvez por que não queira descobrir
De onde vim, quem sou
Mas ao me deparar contigo,
Eu lembro de um tempo

De um tempo em que os humanos
Não escravizavam os animais
De um tempo em que entendíamos
Que somos seres imortais

Do outro lado da Galáxia
Era você o meu mentor
Brincando, assim me preparava
Pro ouro e para dôr dessa missão
Que eu mesmo escolhi

E antes de eu “descer” me avisou:

“.... – Você não vai saber por quê está ali
- Você não vai saber lidar
Com seu poder
- Nem mesmo vai lembrar quem é
Nem de onde vem....”

Mas hoje, de algo em seu olhar
Eu me encontrei
Você me faz lembrar que somos Deuses
Caídos na terceira dimensão

Foi nossa escolha então
E porque não dizer que temos tempo


compositor: Jorge Vercillo

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Não há mundo

Não há mundo que não tenha
nascido duma brecha dum grito
de dor e prazer.
Os seres as coisas
são uma lâmina de duplo gume
são o fruto de um pacto enigmático.
Durante gerações & mundos a fio
vivemos e continuamos a viver
como um passaro-sem-céu, como
um peixe-fora-d'água - este corpo
e os seus afluentes
não são mais do que um
boomerang cujo retorno nos
pode ser fatal. Do que o fruto meio -anjo
meio -demónio e ó quanto perecível,
dum pacto enigmático... PORÉM
algures entre o anjo e o demónio
algo anseia algo trava e sobretudo trava
uma luta sem tréguas
pelo retorno a antes da queda
pelo retorno a quando e onde
durante mundos & gerações a fio
nada nos separava
DA MAIOR LUZ ...


Autor: D'Almeida J.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

E il volatile va

Um dia, no fel de um desamar de novo,
Cansei de ser um reles não-nascido
E rumei bem aquém do já vivido
Para ser o meu começo num ovo.
Como na vida – esta, toda em azuis –
Há que se ter grandeza em concretude,
Descartei a sutileza e a virtude
Do beija-flor: desabrochei avestruz.

Que graça pode haver em ser tal ave
Com asas inúteis e ar de corrupto? –
Perguntarão os mais meigos, de abrupto.

Não há espaço inexplorável, se a nave
É maior que o medo de pecar, mote
Da Humanidade em seu precário bote.

Fiophélio Nonato
(em Autobiografia de um não-nascido)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Na floresta

Na floresta, nessa hora

Flores grandes, coloridas,
Rosas, lírios, margaridas
Florescendo com a aurora

Nas montanhas esculpidas
Ascetas oniscientes.
Águas puras em nascentes
Lavam suas feridas

O sábio em sua caverna
Duvida de sua sabedoria
É a morte uma alegoria
Ou o dom da vida eterna?



Autor: Artur Roncato

domingo, 25 de dezembro de 2011

Noite de Santo Reis

Meu patrão minha sinhora
Cum licença de meceis
Nóis cheguemo aqui agora
Viemo nunciá o Santo Reis

São José Virge Maria
Vai um jumentin também
Pirigrinamo os três
Nas istrada de Belém

O sinhô com sua Dona
Tem nessa casa um tisôro
Os filhos qui istão durmino
Vale mais qui prata e ôro

Oi lá vai os Três Rei Mago
Cum a estrêla de guia
Visitano na capela
Visitano na lapinha
O Minimo qui nascia

Na palha o boi parou de remoer
O carneiro na eira mugiu
O burro levantou quando Jesus nasceu
E os pastores na guarda deram Glória a Deus
Aleluia... aleluia... aleluia

O cego viu o côxo caminhou
O mudo de nascença falou
Quando Jesus andou aqui
Jesus o Bom Pastor da casa de David
Aleluia... aleluia... aleluia


Composição: Elomar Figueira Mello

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Timoneiro e a Entrega



Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar

E quanto mais remo mais rezo
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
- Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar

Timoneiro nunca fui
Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar

A rede do meu destino
Parece a de um pescador
Quando retorna vazia
Vem carregada de dor
Vivo num redemoinho
Deus bem sabe o que ele faz
A onda que me carrega
Ela mesma é quem me traz

composição: Paulinho da Viola

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Tristeza no Céu


No céu, também, há uma hora melancólica
Hora difícil em que a dúvida penetra as almas
Por que fiz o mundo?
Deus se pergunta e se responde:
“Não sei”

Os anjos olham-no com reprovação
e plumas caem

Todas as hipóteses
A graça, a eternidade, o amor, caem
São plumas

Outra pluma, o céu se desfaz
Tão manso, nenhum fragor denuncia
O momento entre tudo e nada
Ou seja, a tristeza de Deus


(por Carlos Drummond de Andrade)