sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

E il volatile va

Um dia, no fel de um desamar de novo,
Cansei de ser um reles não-nascido
E rumei bem aquém do já vivido
Para ser o meu começo num ovo.
Como na vida – esta, toda em azuis –
Há que se ter grandeza em concretude,
Descartei a sutileza e a virtude
Do beija-flor: desabrochei avestruz.

Que graça pode haver em ser tal ave
Com asas inúteis e ar de corrupto? –
Perguntarão os mais meigos, de abrupto.

Não há espaço inexplorável, se a nave
É maior que o medo de pecar, mote
Da Humanidade em seu precário bote.

Fiophélio Nonato
(em Autobiografia de um não-nascido)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Na floresta

Na floresta, nessa hora

Flores grandes, coloridas,
Rosas, lírios, margaridas
Florescendo com a aurora

Nas montanhas esculpidas
Ascetas oniscientes.
Águas puras em nascentes
Lavam suas feridas

O sábio em sua caverna
Duvida de sua sabedoria
É a morte uma alegoria
Ou o dom da vida eterna?



Autor: Artur Roncato

domingo, 25 de dezembro de 2011

Noite de Santo Reis

Meu patrão minha sinhora
Cum licença de meceis
Nóis cheguemo aqui agora
Viemo nunciá o Santo Reis

São José Virge Maria
Vai um jumentin também
Pirigrinamo os três
Nas istrada de Belém

O sinhô com sua Dona
Tem nessa casa um tisôro
Os filhos qui istão durmino
Vale mais qui prata e ôro

Oi lá vai os Três Rei Mago
Cum a estrêla de guia
Visitano na capela
Visitano na lapinha
O Minimo qui nascia

Na palha o boi parou de remoer
O carneiro na eira mugiu
O burro levantou quando Jesus nasceu
E os pastores na guarda deram Glória a Deus
Aleluia... aleluia... aleluia

O cego viu o côxo caminhou
O mudo de nascença falou
Quando Jesus andou aqui
Jesus o Bom Pastor da casa de David
Aleluia... aleluia... aleluia


Composição: Elomar Figueira Mello

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Timoneiro e a Entrega



Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar

E quanto mais remo mais rezo
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
- Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar

Timoneiro nunca fui
Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar

A rede do meu destino
Parece a de um pescador
Quando retorna vazia
Vem carregada de dor
Vivo num redemoinho
Deus bem sabe o que ele faz
A onda que me carrega
Ela mesma é quem me traz

composição: Paulinho da Viola

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Tristeza no Céu


No céu, também, há uma hora melancólica
Hora difícil em que a dúvida penetra as almas
Por que fiz o mundo?
Deus se pergunta e se responde:
“Não sei”

Os anjos olham-no com reprovação
e plumas caem

Todas as hipóteses
A graça, a eternidade, o amor, caem
São plumas

Outra pluma, o céu se desfaz
Tão manso, nenhum fragor denuncia
O momento entre tudo e nada
Ou seja, a tristeza de Deus


(por Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Maya

Nenhuma fotografia pode revelar a vida que corre
o instante
é uma linha maior que a soma de pontos estáticos…
Tente enxergar o que acontece lá fora
além dos muros de sua própria alegria ou dor
mas o que você é, ou como está
filtrará tão somente uma pequena parcela do todo
que pulsará fortemente sobre uma massa de coisas insignificantes.
Assim somos nós
abstratos, insensatos
seguros.
E quando os olhos se abrem
para uma verdade estampada mas não percebida
a vida nunca mais se revelará como era antes
tão cinza e desbotada até poucos minutos atrás
Isso é o que sempre achamos.
Camadas de sonho que se sobrepõem
teias que nos enredam
num lindo sonho de despertar.


Autoria: Roger Alves

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Realidade



Anestesia?
Antidepressivo?
Auto Ajuda?
Air bag?
Não!
E se doer......
Não fale!  

Autoria:  Filipe Zander