domingo, 8 de maio de 2011

Além


"Para além do bem e do mal"
Disse um filósofo
Em seu inferno astral

"Para além do mal e do bem"
Disse bem tranquilo
Um monge todo zen
 
 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Autor: José Régio

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Se não fálas

 
 
Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

Autor: Rabindranath Tagore

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Medo de olhar pra Si


















Pare de sofrer de antemão
- não se julgue um cão -
Saiba que é difícil, sempre no início
Dá muito medo de olhar pra si mesmo
Saiba que o ego é ilusão
- é um falso chão -
O verdadeiro ofício é se livrar do vício
de se pôr um título, e viver a esmo

Pra que se machucar com tão inútil contradição
Esse jogo insaciável de apego e aversão
Se desvalorizar, é o mesmo que se “superamar”
Ambos querem excluir o resto do mundo
Enquanto seu tesouro fica preso lá no fundo


Composição de: Leo Cavalcanti
ouça aqui:
 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O lamento de um guerreiro


Aqui, diante do campo de batalha,
o ar que paira antecede o cheiro nefasto da dor
Sinto minhas forças sumirem
pois não posso lutar contra tudo que mais amo.
Melhor que a morte me carregasse
para seus limbos de ausência e indiferença...
O instante, tal como rio tormentoso,
desemboca em um oceano de agonia
tornando a situação insustentável
e o conflito, inevitável.
Eu não quero lutar,
minhas armas não podem desprender esse golpe.
Mas então vem esse cocheiro
E me fala coisas de uma insanidade lúcida...
Me disse que a batalha não começou aqui, neste cenário
e que as muralhas que foram caindo, uma a uma,
faziam parte do trançado invisível,
criando novos tecidos no cenário da vida
Disse que coisas sublimes nascem de fossos abissais
E que as raízes buscam as profundezas
para permitir que os galhos toquem os céus...
Eu é que sei o quanto esse parto dói
Romper com a ordem, rescrever meu caminho...
Mas o cocheiro me isenta deste sentimento de culpa
Disse que não é a ação, por si mesma, que traz o sofrimento,
pois cada homem é um instrumento tocado pelas mãos da divindade
que infinitamente constrói novos mundos
com os resíduos do mundo antigo...
E por acaso,
a flauta tem alguma culpa da toada triste que espalha pelo vento?
Mesmo isentado da culpa,
inocentado pelo destino,
redimido pela circunstância,
meu cavalo vacila,
meu arco não se dobra,
meu olhar não consegue acreditar...
A covardia me leva a crer
que a rendição ou o ataque vão tirar de mim
tudo que tinha de mais humano...
Cocheiro, preciso de ti...


Autor: Roger Alves

domingo, 17 de abril de 2011

Valsa das rosas


Vai ao pé da montanha
ao mais auto monte
que lá se esconde

a cúbica pedra
a luz da tua fronte
o teu própria nome

Vai a tua própria casa
que lá te espera
a tua própria sobra
a luz da tua face
o teu sobre nome

Mistérios que escondem
a tua própria historia
o galo que canta
ao amanhecer da aurora

E as rosas balançam ao vento que passa
e a vida que dança ao som de uma valsa


Autor: Douglas A. Remonatto