quarta-feira, 27 de abril de 2011

Se não fálas

 
 
Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

Autor: Rabindranath Tagore

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Medo de olhar pra Si


















Pare de sofrer de antemão
- não se julgue um cão -
Saiba que é difícil, sempre no início
Dá muito medo de olhar pra si mesmo
Saiba que o ego é ilusão
- é um falso chão -
O verdadeiro ofício é se livrar do vício
de se pôr um título, e viver a esmo

Pra que se machucar com tão inútil contradição
Esse jogo insaciável de apego e aversão
Se desvalorizar, é o mesmo que se “superamar”
Ambos querem excluir o resto do mundo
Enquanto seu tesouro fica preso lá no fundo


Composição de: Leo Cavalcanti
ouça aqui:
 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O lamento de um guerreiro


Aqui, diante do campo de batalha,
o ar que paira antecede o cheiro nefasto da dor
Sinto minhas forças sumirem
pois não posso lutar contra tudo que mais amo.
Melhor que a morte me carregasse
para seus limbos de ausência e indiferença...
O instante, tal como rio tormentoso,
desemboca em um oceano de agonia
tornando a situação insustentável
e o conflito, inevitável.
Eu não quero lutar,
minhas armas não podem desprender esse golpe.
Mas então vem esse cocheiro
E me fala coisas de uma insanidade lúcida...
Me disse que a batalha não começou aqui, neste cenário
e que as muralhas que foram caindo, uma a uma,
faziam parte do trançado invisível,
criando novos tecidos no cenário da vida
Disse que coisas sublimes nascem de fossos abissais
E que as raízes buscam as profundezas
para permitir que os galhos toquem os céus...
Eu é que sei o quanto esse parto dói
Romper com a ordem, rescrever meu caminho...
Mas o cocheiro me isenta deste sentimento de culpa
Disse que não é a ação, por si mesma, que traz o sofrimento,
pois cada homem é um instrumento tocado pelas mãos da divindade
que infinitamente constrói novos mundos
com os resíduos do mundo antigo...
E por acaso,
a flauta tem alguma culpa da toada triste que espalha pelo vento?
Mesmo isentado da culpa,
inocentado pelo destino,
redimido pela circunstância,
meu cavalo vacila,
meu arco não se dobra,
meu olhar não consegue acreditar...
A covardia me leva a crer
que a rendição ou o ataque vão tirar de mim
tudo que tinha de mais humano...
Cocheiro, preciso de ti...


Autor: Roger Alves

domingo, 17 de abril de 2011

Valsa das rosas


Vai ao pé da montanha
ao mais auto monte
que lá se esconde

a cúbica pedra
a luz da tua fronte
o teu própria nome

Vai a tua própria casa
que lá te espera
a tua própria sobra
a luz da tua face
o teu sobre nome

Mistérios que escondem
a tua própria historia
o galo que canta
ao amanhecer da aurora

E as rosas balançam ao vento que passa
e a vida que dança ao som de uma valsa


Autor: Douglas A. Remonatto

sábado, 16 de abril de 2011

Contos: "Jesus Não era Manso"

Dizem que Jesus de Nazaré era humilde e manso.
Dizem que, embora justo e reto, era homem tímido, e foi confundido muitas vezes pelos fortes e poderosos; e que, quando se achava diante de homens de autoridade, não passava de um cordeiro entre leões.
Mas eu digo que Jesus tinha autoridade sobre os homens e que conhecia Seu poder e o proclamava entre as colinas da Galileia e nas cidades da Judeia e da Fenícia.
Que homem condescendente e brande diria: “Eu sou a Vida, eu sou o caminho para verdade”?
Que homem manso e humilde diria: “Eu estou em Deus, nossa Pai; e nosso Deus, o Pai, está em mim”?
Que homem inseguro da sua própria força diria: “Quem não acredita em mim não acredita nesta vida nem na vida sempiterna”?
Que homem incerto do amanha proclamaria: “Vosso mundo passará e se convertera em cinzas esparsas antes que passem minhas palavras”?
Duvidava Ele de si quando disse aqueles que tentavam embaraçá-lo com um prostituta: “Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra".
Temeu as autoridade quando lançou os cambistas para fora do átrio do templo, embora fossem licenciados pelos sacerdotes?
Estavam Suas asas aparadas quando gritou bem alto: "Meu reino está acima de vossos reinos terrenos”.
Estava procurando abrigo em palavras quando repediu e tornou a repetir: “Destruí este templo, e eu o reconstruirei em três dias”?
Era um covarde quem sacudiu o punho a face das autoridade e as chamou-lhes “mentirosas, vis, corruptas e degeneradas”?
Um homem bastante ousado para dizer essas coisas aqueles que governavam a Judeia poderia se considerado manso e humilde?
Não. A águia não constrói seu ninho no salgueiro-chorão. E o leão não busca sua caverna entre as samambaias;
Sinto-me mal e minhas entranhas agitam-se e revoltam-se dentro de mim quando ouço os debeis de coração chamarem Jesus humilde e manso, para assim justificarem sua própria debilidades; e quando os calcados aos pés, para seu consolo e conforto, falam de Jesus como de um verme brilhando e seu lado.
Sim meu coração fica doente com tais homens. Pois o que eu prego é o caçador poderoso e o espírito invencível das alturas!"


khalil Gibran 
"Jesus, O Filho do Homem"- Fala de NATANAIEL.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Seresta Sertaneja

Nos raios de luz de um beijo puro
me estremeço e eis-me a navegar
por cerúleas regiões
onde ao avaro e ao impuro não é dado entrar
tresloucado cavaleiro andante
a vasculhar espaços
de extintos céus
num confronto derradeiro
venci prometeu, anjo do mal
o mais cruel
acusador de meus irmãos

nestes mundos dissipados
magas entidades dotam o corpo meu
de poderes encantados
mágicos sentidos
na razão dos céus
pois fundir o espaço e o tempo
vencer as tentações rasteiras
do instinto animal
só é dado a quem vê no amor
o único portal

Através de infindas sendas
vias estelares um cordel de luz
trago atado ao umbigo ainda
pois não transmudei-me ao reino dos cristais
apois Deus acorrentou os sábios
na prisão escura das três dimensões
e escravizados desde então
a serviço dos maus
vivem a mentir
vivem a enganar
a iludir os corações

Visitante das estrelas
hóspede celeste visões ancestrais
me torturam pois ao tê-las
quebra o encanto e torno ao mundo de meus pais

À minha origem planetária
enfrentar a mansão da morte do pranto e da dor
donzela fecha esta janela
e não me tentes mais

Composição Elomar Figueira Mello

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cântico da Vida

Dois Poemas de J. Krishnamurti


I

Oh! Alegra-te!
Há trovões nas montanhas
E longas sombras matizam a face verde do vale.
As chuvas suscitam brotos verdes
Nos troncos mortos de ontem.
Lá no alto, entre as rochas,
Uma águia está fazendo o ninho.

Todas as coisas são grandes na vida.
Oh! Amigo,
A vida enche o mundo.
Eu e tu estamos em união eterna.

A vida é como as águas
Que nutrem reis e mendigos igualmente.
Vaso de ouro para o rei,
Para o mendigo vaso de barro,
Que se despedaça na fonte;
Cada qual estima igualmente o seu vaso.
Há isolamento,
Pavor na solidão,
Mágoa do morrer do dia,
Tristeza de uma nuvem que passa.

A vida destituída de amor,
Peregrina de casa em casa,
E ninguém há que lhe proclame o encanto.
Como o de um pedaço de rocha granítica
Transformado numa imagem tumular,
Que os homens têm por sagrada,
Mas pisam a rocha no caminho
Que leva ao templo.
Oh! Amigo,
A vida enche o mundo.
Vós e eu estamos em união eterna.

II

Contém a gota de chuva em sua plenitude
A raivosa torrente
Ou as espelhantes águas de um profundo lago de montanha?
Alimenta uma só gota de chuva, em seu isolamento,
A solitária árvore na colina?
Cria a gota de chuva, isolada em sua grande descida,
O som mavioso de muitas águas?
Mata a gota de água, apenas com sua pureza,
A sede agonizante?
Estou cantando o Cântico da Vida.
Neste cântico,
Oh! Amigo,
Não existe nem eu nem tu,
Mas a Vida, que é, de tudo, a Bem Amada.

Só os ignorantes correm atrás da sombra
De si mesmo na Vida.
E a vida escapa-lhes
Porque vagueiam nos caminhos da sujeição
Daí a luta da separatividade numa grande unidade.
Porque na Vida não existe nem eu nem você.



Autor: J. Krishnamurti
A Estrela Ano II No. 5 e 6 Maio e Junho de 1929