quinta-feira, 7 de abril de 2011

Poética do Eremita


No deserto,
estão secas,
as pedras,
que no mar se molhavam
A semelhança confunde
o eremita
Que solitário demais
passou o tempo
entregando-se à solitária memória

Aqui, a pedra seca
para o eremita,
não perdeu
A qualidade húmida
de poder
ter estado ao pé do mar

Autor: Fiama Hasse Pais Brandão



Ouça na voz de Adriana Calcanhoto:

Declaração de Amor



Minha flor minha flor minha flor...
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. floranêmona.
florazálea. clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortense-gerânea.
Ah, meu nenúfar. rododendro e crisântemo e junquilho meus.
meu ciclâmen. macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Dalia-begônia minha. forsitia-íris tulipa-rosa minhas.
Violeta... amor-mais-que-perfeito.
Minha urze.
Meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Autor: Carlos Drummond de Andrade

A vida acontece...


Já é tarde,
O mundo silencia, e a vida acontece...

O alvorecer desperta,
Enquanto todos dormem em mim mesmo, me encontro
na encruzilhada do tempo.
Onde sonhos são flores regadas
Com gotas de amor.
Cálido ardor
Por ser real, sincero, profundo
Talvez seja por isso, que move o mundo

A vida acontece...
Quando a pétala cai
O vento sopra e a noite rega com seu orvalho
a vida que hoje é vida, e amanha se vai.
Pequenos grilos entoam canções, lindas canções
Para multidões, talvez milhões
Quem nem sequer percebem que enquanto dormem...
A vida acontece

Queria ver-te,
E sentir de novo,
Reviver a poesia...
Que dá notas á melodia
Que junta mil pedaços do espelho que reflete a própria grandeza
Do perfume...
Da alma...
Da canção...
Dos sonhos...
Enquanto a vida acontece.

Seria real o sonho de uma realidade sonhada assim?
Criarias tu, teu próprio mar para desfrutar o luar de uma praia sem fim?
Praia dos sonhos, talvez bem real.
Ponto de encontro, lual,
Da triste realidade, real ilusão...
De fatos que não explicam, mas de fato são...
O mistério da vida em vida...
Todos dormem... que pena!
Enquanto a vida acontece...

Lembranças, não mais as encontro
Apenas em lágrima...
E um silêncio que me perturba.
Sob a lápide que cobre a minha própria vida.
Entre o fim e o principio de tudo
A poesia renasce...

E o Amor acontece!


Poema do Escritor - Reges Coty

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Onde procurar Deus?


Onde me procuras?
Estou contigo.
Não nas peregrinações ou nos ídolos,
tampouco na solidão.
Não nos templos ou nas mesquitas,
tampouco na Caaba ou no Kailash.
Estou contigo, ó homem,
estou contigo.
Não nas preces ou na meditação,
tampouco no jejum.
Não nos exercícios iogues ou na renúncia,
tampouco na força vital ou no corpo.
Estou contigo, ó homem,
estou contigo.
Não no espaço etéreo ou no útero da Terra,
tampouco na respiração da respiração.
Procura ardentemente e descobre,
num instante único de busca.

Autor: Kabir

terça-feira, 5 de abril de 2011

Companheiros de Batalha












A Paz e a Guerra
depois de tanto guerrearem
fizeram as pazes

As duas deram-se as mãos
se cumprimentaram
para depois se separarem em meu peito
definitivamente

agora em um eterno companheirismo.


Autor: Douglas A. Remonatto

Metade




"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida

Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também."


Autor: Oswaldo Montenegro

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Destino do Coração



Os olhos foram feitos para ver coisas insólitas,
fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer.
O coração foi destinado a embriagar-se
na beleza do amigo ou na aflição da ausência.

A meta do amor é voar até o firmamento,
a do intelecto, desvendar as leis e o mundo.

Para além das causas estão os mistérios, as maravilhas.

Os olhos ficarão cegos
quando virem que todas as coisas
são apenas meios para o saber.

O amante, difamado neste mundo
por uma centena de acusações,
receberá, no momento da união,
cem títulos e nomes.

Peregrinar nas areias do deserto
nos exige suportar
beber leite de camelo,
ser pilhados por beduínos.

Apaixonado, o peregrino beija a Pedra Negra
ansioso por sentir mais uma vez
o toque dos lábios do amigo
e degustar como antes o seu beijo.

Ó alma, não cunhes moedas com o ouro das palavras:
o buscador é aquele que vai
à própria mina de ouro.

Autor: Rumi