quinta-feira, 31 de março de 2011

O Caminho da Serpente

Ela atravessa todos os mistérios
e não chega a conhecer nenhum,
pois lhes conhece a ilusão e a lei.
Assume formas com que, e em que, se nega,
porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi,
visto que verdadeiramente o não foi.
Deixa a Cobra do Éden como pele largada,
as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus,
ela,
como não teve caminho,
passa para além de Deus,
pois chegou ali de fora"

Autor: Fernando Pessoa

quarta-feira, 30 de março de 2011

Despertar


Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.

Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:

" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:

"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:

"Quem és tu?"



Autor: khalil Gibran

O Andarilho



Eu andarilho
Caminhando sob o sol da manhã

percorro sereno
a tristeza, a alegria
um céu de beleza
a estrada vazia

eu vou onde vai
o meu coração
sou chuva, sou vento
só, solidão

eu sou, eu sou, eu sou...

caminhando sob o sol
sol a pino

eu ouço em silêncio
a voz da montanha
o frio já se foi
é a luz que me banha

eu canto e o meu canto
viaja no sopro dessa ventania

eu sou, eu sou, eu sou

caminhando sob o sol
vespertino

eu andarilho
caminhando sob o sol
sol sumindo

Dormi contando estrelas
Sonhando um novo sol
Amanhã

Autor:Vítor Meireles/Lucas Ninno

segunda-feira, 28 de março de 2011

Inutil-mente


Inútil-Mente ultima-Mente
andei pensando…


como todos os pensamentos

de minha Mente, Mentem

Sendo inacreditável-Mente,
descarada-Mente,

contraditórios!




Autor: Douglas A. Remonatto

Apontamentos





A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


Autor: Álvaro de Campos (Fernando Pessoa )
Presença, 20, Coimbra, Abril-Maio, 1929

A Visão do Cristo...


A Visão do Cristo que tu vês
É a maior inimiga da minha visão.
A tua tem um grande nariz adunco como o teu,
A minha tem um nariz redondo como o meu.
A tua é a do Amigo da Humanidade;
A minha fala em parábolas aos cegos




Trecho do Livro: O Matrimonio do Céu e do Inferno
de William Blake

O céu


Era a flor diante do sujo
Era o silêncio se opondo ao barulho

inevitável
das almas que dançam o sempre
e o sempre é o que o separam...

Era o dia e o instante,
o perto e o distante...

aqui do chão parece imperceptível,
mas é o que nos lembra que tudo é pequeno



Autor: Paulo Ricardo José