quarta-feira, 30 de março de 2011

O Andarilho



Eu andarilho
Caminhando sob o sol da manhã

percorro sereno
a tristeza, a alegria
um céu de beleza
a estrada vazia

eu vou onde vai
o meu coração
sou chuva, sou vento
só, solidão

eu sou, eu sou, eu sou...

caminhando sob o sol
sol a pino

eu ouço em silêncio
a voz da montanha
o frio já se foi
é a luz que me banha

eu canto e o meu canto
viaja no sopro dessa ventania

eu sou, eu sou, eu sou

caminhando sob o sol
vespertino

eu andarilho
caminhando sob o sol
sol sumindo

Dormi contando estrelas
Sonhando um novo sol
Amanhã

Autor:Vítor Meireles/Lucas Ninno

segunda-feira, 28 de março de 2011

Inutil-mente


Inútil-Mente ultima-Mente
andei pensando…


como todos os pensamentos

de minha Mente, Mentem

Sendo inacreditável-Mente,
descarada-Mente,

contraditórios!




Autor: Douglas A. Remonatto

Apontamentos





A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


Autor: Álvaro de Campos (Fernando Pessoa )
Presença, 20, Coimbra, Abril-Maio, 1929

A Visão do Cristo...


A Visão do Cristo que tu vês
É a maior inimiga da minha visão.
A tua tem um grande nariz adunco como o teu,
A minha tem um nariz redondo como o meu.
A tua é a do Amigo da Humanidade;
A minha fala em parábolas aos cegos




Trecho do Livro: O Matrimonio do Céu e do Inferno
de William Blake

O céu


Era a flor diante do sujo
Era o silêncio se opondo ao barulho

inevitável
das almas que dançam o sempre
e o sempre é o que o separam...

Era o dia e o instante,
o perto e o distante...

aqui do chão parece imperceptível,
mas é o que nos lembra que tudo é pequeno



Autor: Paulo Ricardo José

domingo, 27 de março de 2011

Por quê?

Viver é caminhar cego
em um túnel escuro
A incerteza sua companheira
O desconhecido seu amigo
A sua verdade sua inimiga

As respostas das minhas perguntas
estão mais longe que o infinito
e mais perto que o inserto

Para que escrever se não tenho
respostas para lhe dizer e apenas
perguntas para lhe fazer
O saber não existe
A mentira não existe
E a verdade que não existe, é triste

Sê existo logo sofro
Será eu estarei ficando louco??!
Pois preferirei ficar louco
que ser apenas mais um tolo

Quem sou?
Sou o senhor interrogador!

Pois me pergunto
Por quê?
Porque Deus...
...porque não responde
os meus porquês?!


Mas Deus responde!
Em silencio,
...dizendo:

_Não consegue ouvir minhas respostas!?



Autor: Douglas A. Remonatto

ÉROS E PSIQUE




Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Autor: Fernando Pessoa