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domingo, 17 de abril de 2011

Valsa das rosas


Vai ao pé da montanha
ao mais auto monte
que lá se esconde

a cúbica pedra
a luz da tua fronte
o teu própria nome

Vai a tua própria casa
que lá te espera
a tua própria sobra
a luz da tua face
o teu sobre nome

Mistérios que escondem
a tua própria historia
o galo que canta
ao amanhecer da aurora

E as rosas balançam ao vento que passa
e a vida que dança ao som de uma valsa


Autor: Douglas A. Remonatto

domingo, 10 de abril de 2011

Sama

Trevas Luminosas






"Chegar a estas trevas  mais do que luminosas é o que suplicamos
e, pela privação da visão e pelo não-conhecimento,
ver e conhecer Aquele que está acima da contemplação e do conhecimento
precisamente pelo acto de não ver nem conhecer
nisto consiste, de fato, a verdadeira observação e conhecimento"

Pseudo-Dionísio, o Areopagita
Via para Alcançar a Treva -Teologia Mística [1025b]

sábado, 9 de abril de 2011

Brasão



Deu-me Deus o seu gládio,
porque eu faça
A sua santa guerra.
sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.


Autor: Fernando Pessoa
Brasão, Mensagem

domingo, 3 de abril de 2011

Egoísmo

Fui sozinho à minha entrevista,
Quem é esse que me segue
na escuridão calada?

Afasto-me para ele passar,
mas não passa.

Seu andar soberbo
levanta poeira,
sua voz forte
duplica a minha palavra.

Senhor,
é o meu pobre eu!
Ele não se importa com nada.
Mas como sinto vergonha
por ter de vir com ele
à tua porta!


Autor: Rabindranath Tagore,
in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões

quinta-feira, 31 de março de 2011

O Caminho da Serpente

Ela atravessa todos os mistérios
e não chega a conhecer nenhum,
pois lhes conhece a ilusão e a lei.
Assume formas com que, e em que, se nega,
porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi,
visto que verdadeiramente o não foi.
Deixa a Cobra do Éden como pele largada,
as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus,
ela,
como não teve caminho,
passa para além de Deus,
pois chegou ali de fora"

Autor: Fernando Pessoa

quarta-feira, 30 de março de 2011

Despertar


Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.

Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:

" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:

"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:

"Quem és tu?"



Autor: khalil Gibran

segunda-feira, 28 de março de 2011

Apontamentos





A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


Autor: Álvaro de Campos (Fernando Pessoa )
Presença, 20, Coimbra, Abril-Maio, 1929

A Visão do Cristo...


A Visão do Cristo que tu vês
É a maior inimiga da minha visão.
A tua tem um grande nariz adunco como o teu,
A minha tem um nariz redondo como o meu.
A tua é a do Amigo da Humanidade;
A minha fala em parábolas aos cegos




Trecho do Livro: O Matrimonio do Céu e do Inferno
de William Blake

domingo, 27 de março de 2011

ÉROS E PSIQUE




Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Autor: Fernando Pessoa

sábado, 26 de março de 2011

O cria-dor


Eles não sentiram a cor que faz
o assobio de um arco-íres
Que traz apaz
Que cavam e chegam
No lugar nenhum,
Acabam com o cabo da
inchada que fica a pancada
na cabeça, de cega alguns,
outros acho que não
sabem também quem
é que é o ganha-dor,
quem, Criador é você!

Mas quem é que vê
que o cria-dor é você?



Autor: Douglas A. Remonatto

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Homem e a Mulher


O homem é a mais elevada das criaturas; a mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher um altar.
O trono exalta; o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher é o coração.

O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor.
A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é forte pela razão; a mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence; as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios.

O heroísmo enobrece; o martírio sublima.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência.
A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O gênio é imensurável; o anjo, indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória.
A aspiração da mulher é a virtude extrema.
A glória faz tudo grande.

A virtude faz tudo divino.
O homem é um código; a mulher, um evangelho.
O Código corrige; o evangelho aperfeiçoa.
O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter no crânio uma larva.
Sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é um oceano; a mulher, um lago.
O oceano tem a pérola que adorna.
O lago, a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa.
A mulher é o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço.
Cantar é conquistar a alma.

O homem é um templo. a mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos. Ante o sacrário nos ajoelhamos.
Enfim, o homem está colocado aonde termina a terra e a mulher onde começa o céu.


Autor: Vitor Hugo