"Chegar a estas trevas mais do que luminosas é o que suplicamos
e, pela privação da visão e pelo não-conhecimento,
ver e conhecer Aquele que está acima da contemplação e do conhecimento
precisamente pelo acto de não ver nem conhecer
nisto consiste, de fato, a verdadeira observação e conhecimento"
Pseudo-Dionísio, o Areopagita
Via para Alcançar a Treva -Teologia Mística [1025b]
Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça A sua santa guerra. sagrou-me seu em honra e em desgraça, Às horas em que um frio vento passa Por sobre a fria terra.
Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me A fronte com o olhar; E esta febre de Além, que me consome, E este querer grandeza são seu nome Dentro em mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá Em minha face calma. Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma.
Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga. E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
A Visão do Cristo que tu vês É a maior inimiga da minha visão. A tua tem um grande nariz adunco como o teu, A minha tem um nariz redondo como o meu. A tua é a do Amigo da Humanidade; A minha fala em parábolas aos cegos
Trecho do Livro: O Matrimonio do Céu e do Inferno de William Blake
Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante, que viria De além do muro da estrada. Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera, Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera. Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado, Ele dela é ignorado, Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. E, se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro, E vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora, E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia, Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia.
Eles não sentiram a cor que faz o assobio de um arco-íres Que traz apaz Que cavam e chegam No lugar nenhum, Acabam com o cabo da inchada que fica a pancada na cabeça, de cega alguns, outros acho que não sabem também quem é que é o ganha-dor, quem, Criador é você!
O homem é a mais elevada das criaturas; a mulher é o mais sublime dos ideais. Deus fez para o homem um trono; para a mulher um altar. O trono exalta; o altar santifica. O homem é o cérebro; a mulher é o coração. O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor. A luz fecunda; o amor ressuscita. O homem é forte pela razão; a mulher é invencível pelas lágrimas. A razão convence; as lágrimas comovem. O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece; o martírio sublima. O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito. O gênio é imensurável; o anjo, indefinível. A aspiração do homem é a suprema glória. A aspiração da mulher é a virtude extrema. A glória faz tudo grande. A virtude faz tudo divino. O homem é um código; a mulher, um evangelho. O Código corrige; o evangelho aperfeiçoa. O homem pensa; a mulher sonha. Pensar é ter no crânio uma larva. Sonhar é ter na fronte uma auréola. O homem é um oceano; a mulher, um lago. O oceano tem a pérola que adorna. O lago, a poesia que deslumbra. O homem é a águia que voa. A mulher é o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço. Cantar é conquistar a alma. O homem é um templo. a mulher é o sacrário. Ante o templo nos descobrimos. Ante o sacrário nos ajoelhamos. Enfim, o homem está colocado aonde termina a terra e a mulher onde começa o céu.